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Desde que John Hammond decidiu transformar assombro científico em atração turística, os dinossauros deixaram de pertencer à pré-história e passaram a integrar uma outra ordem, muito mais lucrativa e menos inocente: a das propriedades intelectuais que Hollywood ressuscita sempre que encontra um novo pretexto para reunir crianças, adultos cansados, cientistas imprudentes, mercenários de aluguel e bichos grandes demais para caberem numa teoria. “Jurassic World: Recomeço” chega, portanto, carregando uma contradição bastante visível. Seu título promete renascimento, sua estrutura conhece de cor todos os caminhos já abertos por Steven Spielberg em 1993, e Gareth Edwards, diretor afeito a criaturas monumentais desde “Godzilla” (2014), tenta fazer desse retorno uma aventura de escala, susto e alguma dignidade visual, sem fingir que a franquia ainda guarda a pureza de quando um copo d’água tremia sobre o painel de um carro e o cinema inteiro prendia a respiração.

Cinco anos depois dos eventos de “Jurassic World: Domínio”, a convivência entre humanos e dinossauros revelou-se menos apocalíptica e mais melancólica do que se imaginava. A Terra não virou um parque global de monstros; tornou-se, na verdade, um lugar hostil para aqueles animais deslocados, condenados a sobreviver em regiões equatoriais isoladas, onde o clima ainda lembra vagamente o mundo que lhes pertencia. É nesse cenário que Martin Krebs, representante de uma indústria farmacêutica de modos educados e apetite nada discreto, contrata Zora Bennett, uma especialista em operações encobertas vivida por Scarlett Johansson com a secura de quem já viu coisa demais para se impressionar com promessas humanitárias. A missão é simples na formulação e suicida na prática: recolher material genético das três criaturas mais colossais em terra, mar e ar, matéria-prima para um medicamento capaz de salvar vidas humanas e, claro, de enriquecer gente que jamais colocaria os sapatos na lama.

Scarlett Johansson no centro do novo parque

David Koepp, que escreveu o “Jurassic Park” original com Michael Crichton, volta ao universo que ajudou a estabelecer e leva consigo uma noção elementar que andava em falta nos capítulos recentes: dinossauro bom em cena precisa ser ameaça, maravilhamento e interrupção brutal da arrogância humana. Para acompanhar Zora, entram Dr. Henry Loomis, paleontólogo interpretado por Jonathan Bailey com uma mistura agradável de entusiasmo nerd e pânico mal disfarçado, e Duncan Kincaid, capitão vivido por Mahershala Ali, figura que o ator sustenta com uma nobreza calma, mesmo quando o roteiro parece não saber exatamente o que fazer com seu porte. A equipe ainda inclui tipos destinados ao sacrifício, ao comentário cínico ou à função prática, até que a missão cruza o caminho de Reuben Delgado, suas filhas e o namorado de uma delas, náufragos involuntários depois de um ataque em alto-mar. A partir daí, “Recomeço” entende que uma aventura jurássica precisa de gente comum em perigo, não só especialistas lendo mapas e acionando equipamentos sofisticados.

Edwards filma melhor quando aceita a pequenez dos homens diante dos animais. A sequência marítima com o Mosasaurus devolve à franquia algo do medo físico, da sensação de que a água, por si só, já seria um adversário suficiente antes que uma mandíbula impossível viesse rasgar a superfície. As cenas na ilha de Saint-Hubert, antigo território de experiências abandonadas, também funcionam quando o diretor deixa o mato, a ferrugem dos laboratórios e a umidade tropical pesarem sobre os personagens. Há bons momentos de perseguição, corredores que parecem respirar, sombras que se movem antes do ataque, um gosto de matinê cara que sabe exatamente quando precisa acelerar. O problema começa quando o filme se sente obrigado a transformar cada lembrança do passado em piscadela, cada susto em aceno reconhecível, cada nova criatura em variação de um catálogo que já foi espanto e agora, às vezes, parece vitrine.

Gareth Edwards entre espetáculo e nostalgia

Scarlett Johansson é o eixo mais seguro do longa. Sua Zora não tem a leveza aventureira de Indiana Jones nem a doçura contrariada de Ellie Sattler; ela se aproxima mais de uma profissional calejada, dessas que negociam valores absurdos porque sabem que a vida não costuma pagar hora extra a quem sobrevive. Johansson não força carisma, e isso ajuda. Bailey, por sua vez, oferece ao Dr. Loomis um encanto desajeitado, como se a inteligência do personagem ainda não tivesse aprendido a se defender do horror que estudou em livros. Ali empresta gravidade a Duncan, ainda que o roteiro lhe reserve menos carne dramática do que sua presença sugere. Rupert Friend, como Krebs, encarna bem a face polida da cobiça corporativa, esse tipo de sujeito que fala em cura enquanto calcula patente, bônus e cláusula de confidencialidade.

“Jurassic World: Recomeço” não devolve a franquia ao estado de graça, porque isso talvez seja impossível. Falta-lhe a surpresa inaugural, falta-lhe uma ideia realmente nova para que os dinossauros deixem de ser só obstáculos magníficos entre uma cena e outra, falta-lhe também coragem para abandonar de vez a reverência. Ainda assim, Edwards tem olho para o colossal, Koepp sabe organizar uma caçada, e o elenco impede que os 133 minutos afundem na mecânica pura do espetáculo. Quando os animais aparecem, especialmente nos instantes em que a câmera os trata como forças anteriores à linguagem humana, o filme respira. Quando os homens voltam a explicar suas intenções, negociar lucros e correr por instalações destruídas, percebe-se a velha lição que a saga repete há mais de trinta anos sem que ninguém aprenda: a natureza não precisa odiar o homem para esmagá-lo. Basta que ele continue confundindo milagre com oportunidade de negócio.


Filme: Jurassic World: Recomeço
Diretor: Gareth Edwards
Ano: 2025
Gênero: Ação/Aventura
Avaliação: 3.5/5 1 1
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