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A fama sempre teve um quê de doença americana, e “15 Minutos” sabe disso antes que seus próprios personagens consigam formular a tese sem parecerem lunáticos. No país em que um homicida pode transformar o tribunal em palco, a televisão em cúmplice e a confissão em produto, John Herzfeld encontra uma boa premissa para um thriller sujo, barulhento, moralmente exasperado, desses que nasceram na virada do milênio como se Hollywood pressentisse que a intimidade seria logo devorada por câmeras cada vez menores, mais baratas e mais vorazes. O título alude à velha máxima atribuída a Andy Warhol, só que aqui os tais quinze minutos não são uma anedota sobre celebridades ocasionais. São um método de ascensão social banhado em sangue.

Emil Slovák e Oleg Razgul chegam a Nova York atrás de dinheiro. Vêm do Leste Europeu com a truculência de quem aprendeu a sobreviver em sistemas onde a lei sempre pareceu uma piada privada dos poderosos, e logo descobrem que o amigo que deveria guardar sua parte num crime antigo gastou tudo. Emil, vivido por Karel Roden com uma frieza de réptil contrariado, mata o homem sem grande hesitação; Oleg, interpretado por Oleg Taktarov, filma a cena com uma câmera portátil e vai percebendo que aquele registro pode ser mais valioso que a quantia perdida. O primeiro mata porque sabe. O segundo filma porque sonha. A combinação dá ao longa sua melhor ideia, ainda que Herzfeld nem sempre consiga domar a brutalidade do que inventou.

De Niro contra a fábrica da celebridade

A entrada de Eddie Fleming, o detetive famoso de Robert De Niro, desloca “15 Minutos” para uma zona mais interessante. Fleming é um policial eficiente, vaidoso, acostumado a aparecer diante das câmeras com a naturalidade de quem já compreendeu que combater o crime também pode render audiência. De Niro não precisa fazer muito para sugerir o cansaço desse homem, um sujeito que ainda acredita no ofício, conquanto já tenha aceitado seus penduricalhos publicitários. Quando cruza o caminho de Jordy Warsaw, o bombeiro investigador de Edward Burns, a parceria nasce menos da afinidade entre dois profissionais que de uma necessidade prática. Há um incêndio, cadáveres, uma investigação mal alinhavada e dois assassinos que parecem sempre meio passo à frente porque não respeitam os limites civilizados que os perseguidores ainda precisam fingir respeitar.

Herzfeld, que também assina o roteiro, tem uma raiva evidente da televisão sensacionalista. Essa raiva aparece em Robert Hawkins, o apresentador vivido por Kelsey Grammer com o sorriso oleoso de quem venderia a própria mãe se a imagem viesse em boa resolução. Hawkins é a figura mais transparente do filme, e talvez por isso a mais incômoda. Não há sutileza alguma em sua fome por imagens exclusivas, por desgraças frescas, por cadáveres que ainda possam aquecer a grade de programação antes do intervalo comercial. O problema é que “15 Minutos” condena o espetáculo ao mesmo tempo em que se lambuza nele, multiplicando explosões, execuções, perseguições e reviravoltas como se temesse perder justamente a audiência que finge desprezar.

A câmera como cúmplice do crime

Esse impasse dá ao filme sua força e sua limitação. A certa altura, Emil e Oleg descobrem que podem alegar insanidade, vender sua história, virar celebridades e talvez ainda lucrar com a matança. É uma ideia feroz, quase profética, por mostrar criminosos não como marginais escondidos nas franjas da cidade, e sim como aprendizes rápidos de uma cultura que transforma notoriedade em absolvição simbólica. Oleg, cineasta tosco de sua própria barbárie, acredita estar dirigindo uma obra. Emil aceita o papel de monstro porque percebe que monstros também podem negociar contratos. Roden e Taktarov sustentam essa caricatura perigosa com vigor, mesmo quando o texto escorrega para uma xenofobia de gibi, fazendo dos estrangeiros uma ameaça que parece ter desembarcado não de Praga ou Moscou, e sim de alguma fantasia paranoica do noticiário americano.

A melhor ousadia de Herzfeld está em ferir o conforto do público no meio da projeção, retirando de cena uma segurança que parecia garantida e obrigando o filme a seguir por um caminho menos previsível. De Niro, até ali tratado como eixo moral da história, deixa uma sombra que Burns tenta ocupar com dignidade. Jordy Warsaw não tem o carisma de Fleming, tampouco a mesma autoridade dramática, e o próprio filme parece saber disso, passando a depender mais da engrenagem policial que da presença humana. Melina Kanakaredes, como Nicolette Karas, e Avery Brooks, como Leon Jackson, surgem para dar densidade ao entorno institucional, embora fiquem presos a funções bastante estreitas, como se Herzfeld tivesse pressa demais para permitir que alguém respirasse fora do incêndio principal.

Visto hoje, “15 Minutos” é um thriller irregular, berrado, às vezes vulgar, com uma inteligência que insiste em sobreviver ao próprio excesso. Sua sátira da mídia não tem a precisão cruel de “Rede de Intrigas”, nem a elegância paranoica dos grandes filmes sobre celebridade e crime, mas há nele um desconforto legítimo. Quando a câmera de Oleg grava a morte como quem coleciona prova de talento, e Hawkins fareja aquela imundície como oportunidade profissional, Herzfeld acerta no osso. O filme pode tropeçar em sua sanha de chocar, pode confundir denúncia com algazarra e comentário social com pancadaria, ainda assim preserva uma imagem muito concreta do começo deste século: gente matando para aparecer, gente filmando para existir, gente assistindo para não se sentir culpada. E, nisso, a América que ele acusa não parece ter melhorado nada.


Filme: 15 Minutos
Diretor: John Herzfeld
Ano: 1998
Gênero: Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
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