A velhice dos astros de ação costuma ser uma provação ingrata, sobretudo quando o corpo já não obedece à mitologia que ajudou a fundar. Bruce Willis e John Travolta voltam a dividir a tela quase três décadas depois de “Pulp Fiction” (1994), e essa informação, usada como chamariz de “Um Paraíso Perigoso”, pesa mais que o próprio enredo. Dirigido por Chuck Russell, com roteiro dele, Corey Large e Edward Drake, o longa americano de 2022 se vende como thriller havaiano de vingança, daqueles em que homens armados atravessam becos, docas, mansões e praias como se o mundo ainda coubesse numa pistola e numa frase dita de lado. O problema é que Maui, aqui, parece menos uma ilha de crimes, cobiça imobiliária e segredos enterrados que uma locação bonita tentando disfarçar a escassez de nervo.
Dois astros, uma reunião tardia
Ian Swan, o caçador de recompensas vivido por Willis, é baleado e desaparece nas águas de Maui, presumivelmente morto. O filho, Ryan Swan, interpretado por Blake Jenner, chega para fazer o que filhos de homens durões fazem desde que Hollywood descobriu a utilidade dramática de pais ausentes: procura vingança, explicações e algum vestígio de afeto tardio no rastro de sangue deixado pelo velho. A ele se juntam Robbie Cole, o ex-parceiro de Ian encarnado por Stephen Dorff, e Savannah, a detetive local de Praya Lundberg, uma policial que deveria funcionar como bússola moral da investigação, embora receba do filme menos densidade do que a paisagem à sua volta. Do outro lado está Buckley, o sujeito poderoso de John Travolta, um vilão de camisa espalhafatosa, sorriso oleoso e intenções de especulador, a figura que transforma a ilha em tabuleiro de interesses privados.
Chuck Russell conhece o cinema de gênero. Foi ele quem comandou “A Hora do Pesadelo 3” (1987), “O Máskara” (1994) e “Queima de Arquivo” (1996), trabalhos muito distintos entre si, todos com alguma compreensão do espetáculo popular, do exagero calculado e da utilidade de um protagonista que sabe preencher o quadro. Em “Um Paraíso Perigoso”, entretanto, essa experiência aparece em estado intermitente. Há tiroteios, perseguições, ameaças, um helicóptero, capangas, políticos locais, conversas em tom conspiratório e a velha promessa de que a verdade surgirá quando os homens certos forem suficientemente violentos. Quase tudo chega atrasado, sem peso, como se cada cena já tivesse sido vista antes e apenas aguardasse a próxima fala funcional para sair do caminho.
Willis, Travolta e a melancolia do gênero
Willis, nessa fase derradeira de sua filmografia, surge como uma presença mais afetiva que dramática. Ian Swan tem o nome, a reputação e a gravidade do homem que deveria assombrar todos os outros personagens, porém o filme o usa com parcimônia excessiva, deixando que a ideia de Bruce Willis trabalhe mais que Bruce Willis. Ainda assim, quando aparece, há qualquer coisa de melancólico naquele rosto que o cinema tantas vezes transformou em trincheira contra terroristas, criminosos, meteoros e trapalhadas familiares. Travolta, por sua vez, parece compreender melhor a natureza algo vagabunda do projeto. Seu Buckley se move como um vilão que saiu de um filme de ação dos anos 1990 e resolveu envelhecer sem pedir desculpas, dono de uma elegância cafona que, em algumas cenas, diverte mais do que ameaça.
Blake Jenner assume o centro da trama sem conseguir fazer de Ryan Swan uma figura memorável. O rapaz corre, apanha, pergunta, aponta armas e sustenta o luto com aquela disposição correta de quem sabe estar ocupando o espaço destinado ao herói, mas sua presença nunca alcança a combustão necessária para justificar a aventura. Stephen Dorff entrega a Robbie Cole uma aspereza mais interessante, um cansaço de parceiro que já viu o bastante para desconfiar de todo mundo e ainda assim segue adiante, talvez porque tipos como ele não saibam fazer outra coisa. Praya Lundberg, como Savannah, merecia um filme mais atento à inteligência da personagem; aqui, ela funciona como peça de equilíbrio num roteiro que prefere acelerar por atalhos.
“Um Paraíso Perigoso” tem 88 minutos na versão exibida em streaming no Brasil, duração que deveria favorecer a secura de um thriller de ação. Russell, contudo, não encontra uma cadência realmente cortante. A montagem avança como quem cumpre uma obrigação, e a violência, embora frequente, raras vezes deixa marca. O Havaí poderia dar ao filme uma textura própria, com sua contradição entre paraíso turístico e território saqueado por interesses de gente rica, porém essa dimensão surge apenas como verniz. A tal Paradise City, comunidade guardada e cobiçada, sugere uma crítica à colonização econômica das ilhas, à política comprada e ao luxo erguido sobre ruínas alheias, só que o roteiro prefere resolver tudo com tiros, caras fechadas e revelações de prateleira.
Ainda assim, existe algum prazer arqueológico em ver Willis, Travolta e Dorff atravessando esse tipo de produção, sobreviventes de uma Hollywood que perdeu a inocência e também a vergonha. “Um Paraíso Perigoso” está longe de ser bom, e talvez nem tente com a convicção necessária. Serve melhor como registro de uma era em decomposição, na qual velhos astros continuam chamados para emprestar ao filme um passado que ele não sabe honrar. No fim, Maui permanece bela, Travolta sai menos chamuscado do que deveria, Dorff segura o que pode e Willis deixa a impressão incômoda de um adeus filmado sem a solenidade que ele merecia.

