O universo é grande demais para que o homem continue achando que há nele alguma centralidade. Desde Galileu Galilei (1564-1642), talvez antes, essa desconfiança vem se transformando em certeza, e a ficção científica, quando se lembra de sua melhor vocação, põe o gênero humano diante do espelho cósmico que mais o humilha: aquele no qual quase não aparecemos. “Devoradores de Estrelas”, adaptação de Phil Lord e Christopher Miller para o romance “Project Hail Mary” (2021), de Andy Weir, segue por esse caminho com a esperteza de quem sabe que uma aventura interplanetária precisa de mais que foguetes, cálculos e telas acesas. Precisa de um homem ridículo o bastante para ser crível. E Ryan Gosling, felizmente, entende o tamanho da encrenca.
Ryland Grace, professor de ciências do ensino fundamental, acorda numa nave a 11,9 anos-luz da Terra sem saber quem é, onde está ou por que dois cadáveres o acompanham naquele caixão tecnológico à deriva. A primeira virtude do roteiro de Drew Goddard é não transformar a amnésia do protagonista num artifício barato de suspense, desses que adiam respostas porque não têm mais nada a oferecer. Grace recobra a memória aos poucos, e cada lampejo devolve ao filme uma peça do imbróglio: o Sol está morrendo, uma substância misteriosa começa a devorar sua energia, o planeta caminha para uma espécie de inverno terminal, e a humanidade, como sempre acontece em situações-limite, organiza com pompa científica uma medida desesperada. O professor que ensinava crianças a não se intimidarem diante de hipóteses improváveis acaba convertido na última experiência da espécie.
Lord e Miller, tão associados ao humor buliçoso de “Anjos da Lei” e ao virtuosismo pop das animações do Aranhaverso, poderiam ter feito de “Devoradores de Estrelas” uma gincana espacial com piadas entre explosões e raciocínios de quadro-negro. O filme conserva a inclinação pândega da dupla, sobretudo quando Grace precisa conversar consigo mesmo para não enlouquecer ou quando o roteiro encontra graça no contraste entre a monumentalidade da missão e a vocação professoral do protagonista, sempre disposto a explicar o impossível como se estivesse diante de uma turma de sexto ano meio distraída. O achado, contudo, está em dosar essa leveza sem dissolver o perigo. O Sol morre devagar, a Terra se apaga longe dali, e a nave Hail Mary, com seus corredores asseados demais e sua solidão de laboratório orbital, torna-se um cenário de confinamento menos apavorante pelo vazio que pela responsabilidade que deposita num sujeito que preferiria estar em casa corrigindo trabalhos ruins.
Ryan Gosling contra a solidão cósmica
Gosling trabalha Ryland Grace como um homem que alterna inteligência prática, pavor infantil e uma ternura meio desajeitada. O ator já havia visitado o espaço em “O Primeiro Homem” (2018), de Damien Chazelle, no qual Neil Armstrong parecia caminhar para a Lua carregando um luto que a gravidade não conseguia segurar. Aqui, sua contenção dá lugar a uma expressividade mais franca, quase escolar, e essa mudança serve ao filme. Grace não é um herói talhado para o sacrifício; é um cientista que pensa melhor quando fala alto, tropeça em suas próprias deduções, irrita-se com a matemática que deveria salvá-lo e recupera a compostura quando percebe que ainda pode testar alguma coisa. Gosling torna verossímeis esses saltos de humor, fugindo tanto da pose messiânica quanto do cacoete do gênio excêntrico, esse boneco de laboratório que o cinema americano adora vender como profundidade.
A entrada de Eva Stratt, a burocrata interpretada por Sandra Hüller, abre uma segunda camada de interesse. Nos flashbacks, ela comanda a resposta internacional à catástrofe com uma frieza que beira a brutalidade, e Hüller faz dessa mulher uma figura fascinante porque nunca pede absolvição ao espectador. Stratt recruta, pressiona, manipula e decide como quem sabe que delicadezas administrativas não servem para impedir uma extinção. A atriz alemã, precisa em cada pausa, empresta ao filme um contrapeso moral mais severo que as agruras do espaço: alguém teria de sujar as mãos para que Grace chegasse à nave, e “Devoradores de Estrelas” fica melhor sempre que admite essa torpeza civilizatória escondida sob crachás, relatórios e reuniões de crise. Milana Vayntrub, Ken Leung e Lionel Boyce compõem a engrenagem humana do projeto, com funções às vezes comprimidas demais pela necessidade de manter o protagonista no centro, embora Vayntrub consiga imprimir vivacidade a Olesya Ilyukhina, engenheira que parece compreender as máquinas com a mesma naturalidade com que desconfia dos homens.
A amizade que salva o espetáculo
Então surge Rocky. É difícil comentar “Devoradores de Estrelas” sem render-se a esse alienígena de corpo estranho, voz musical e inteligência comovente, trazido à vida por James Ortiz numa combinação de atuação, manipulação física e acabamento visual que devolve ao cinema de grande escala um prazer quase artesanal. Rocky poderia virar mascote, boneco de prateleira, alívio cômico para vender chaveiro em loja de multiplex. Lord e Miller evitam a degradação do personagem ao permitir que ele seja, antes de qualquer fofura, um engenheiro tão desesperado quanto Grace, vindo de outro mundo para resolver o mesmo problema. A comunicação entre os dois, primeiro feita de ruídos, gestos e tentativas precárias de tradução, dá ao filme seus melhores momentos. Não por sentimentalismo fácil, e sim porque ali a ficção científica encontra uma ideia dramática concreta: duas espécies sem repertório comum descobrem que a sobrevivência depende de confiança, paciência e método. A amizade nasce de medições, erros, riscos calculados, sustos e pequenas concessões de um lado e de outro. Nunca uma tabela de dados pareceu tão próxima de um aperto de mão.
A duração alentada cobra seu preço. Há explicações demais em alguns trechos, flashbacks que reiteram o que já estava compreendido, e a parte terrestre, embora sustentada por Hüller, às vezes ameaça transformar a urgência planetária numa sucessão de decisões logísticas mais funcionais que dramáticas. Goddard, que já havia adaptado Weir em “Perdido em Marte” (2015), conhece bem o encanto do problema científico resolvido diante da plateia, e aqui repete o gosto pela engenhosidade como espetáculo. Funciona na maior parte do tempo porque Lord e Miller filmam os experimentos com clareza, sem aquele vício contemporâneo de converter toda descoberta em montagem histérica. Quando Grace observa, testa, falha e recomeça, o filme encontra seu pulso. Quando alguém precisa verbalizar pela terceira vez o tamanho da ameaça, a engrenagem range.
Ainda assim, “Devoradores de Estrelas” pertence à rara estirpe dos blockbusters que não desprezam a inteligência do público nem têm vergonha de buscar emoção. A fotografia de Greig Fraser dá ao espaço uma textura menos asséptica que solene, e a trilha de Daniel Pemberton acompanha o assombro sem esmagar a intimidade dos encontros entre Grace e Rocky. O melhor do filme está justamente nesse equilíbrio instável entre imensidão e miudeza: estrelas adoecem, civilizações tremem, governos se atropelam, e a salvação talvez dependa de um professor improvisando com tubos, sensores e uma criatura que nunca viu um rosto humano antes.
Nos minutos finais, quando a aventura já cumpriu sua cota de perigo e maravilhamento, resta a impressão de que Lord e Miller fizeram uma ficção científica popular no sentido mais nobre do termo, dessas que explicam bastante, brincam quando podem e se recusam a entregar cinismo como sinal de maturidade. A humanidade de “Devoradores de Estrelas” não vence porque merece; vence porque, por uma vez, aprende a escutar o que vem de fora de sua própria arrogância. Para um filme sobre o fim do Sol, há nele uma luz inesperadamente teimosa.

