Discover

Liam Neeson descobriu tarde, já maduro demais para posar de rapaz inconsequente e ainda vigoroso o bastante para esmagar bandoleiros de fancaria, que Hollywood sempre tem lugar para um pai furioso, um viúvo mal resolvido, um agente gasto, um homem acuado dentro de algum veículo, casa, trem ou avião, desde que haja uma voz ao telefone, uma filha em perigo e a promessa de que a próxima esquina talvez o leve ao inferno. Depois de “Busca Implacável” (2008), essa segunda carreira do ator virou quase um subgênero, com suas variações mais ou menos preguiçosas, e “A Chamada”, dirigido por Nimród Antal e escrito por Christopher Salmanpour, entra nessa galeria sem pedir licença, remake do espanhol “El desconocido” (2015), já refeito antes na Alemanha e na Coreia do Sul.

Matt Turner é um financista americano radicado em Berlim, desses homens que parecem ter trocado a família por planilhas de investimento, ligações urgentes e uma aflição profissional que nunca descansa. A mulher, Heather, vivida por Embeth Davidtz, está cansada de esperar que ele volte para casa inteiro, não no corpo, ainda preservado, e sim no mínimo interesse pelo que acontece à sua volta; os filhos, Zach e Emily, interpretados por Jack Champion e Lilly Aspell, já aprenderam a tratá-lo como um motorista eventual, uma autoridade doméstica sem muito lastro. Na manhã em que decide levá-los à escola, Matt atende ao telefone deixado no carro e ouve a sentença que moverá os 91 minutos do longa: há uma bomba sob seu assento, acionada por pressão, pronta para explodir se ele sair, se as crianças saírem ou se a voz do outro lado da linha assim decidir.

O cansaço de Liam Neeson como método

Antal conhece ambientes fechados, conhece o valor de uma respiração interrompida e já havia mostrado em “Vacancy” (2007) e “Predators” (2010) alguma habilidade para apertar personagens contra paredes reais ou simbólicas. Aqui, a parede é o painel do carro, o cinto de segurança, o trânsito berlinense, a tela do celular, o rosto de Neeson visto em close, cada vez mais vermelho, mais aturdido, mais próximo de um colapso que o filme promete e quase nunca tem coragem de levar às últimas consequências. “A Chamada” funciona melhor quando aceita sua vocação de engenhoca: Matt dirige, a voz manda, uma pessoa próxima morre para provar que a ameaça não é blefe, a polícia fecha o cerco, e Angela Brickmann, a agente da Europol defendida por Noma Dumezweni, passa a enxergar no protagonista não uma vítima, e sim o provável responsável pela carnificina. O imbróglio é simples, talvez simples demais, e por isso exige precisão.

Essa precisão aparece aos solavancos. A câmera de Flavio Labiano tenta transformar o interior do veículo numa jaula móvel, e Steven Mirkovich monta a ação com urgência suficiente para que o espectador não abandone Matt no primeiro semáforo, conquanto a repetição de planos — o pai, a filha em pânico, o filho ressentido, o celular, a rua, o pai outra vez — logo denuncie a magreza do expediente. O roteiro atribui ao trabalho de Matt uma zona de culpa bastante conveniente, envolvendo dinheiro de clientes, ordens do chefe Anders Müller, de Matthew Modine, e uma rede de ressentimentos que poderia render uma sátira mais venenosa sobre homens ricos brincando com recursos alheios. O filme prefere o caminho do thriller funcional, aquele em que tudo precisa ser explicado por alto, enquanto carros de polícia cruzam avenidas, jornalistas surgem em telas, e um homem que nunca teve tempo para os filhos é obrigado a descobrir paternidade sob ameaça de combustão.

Neeson, aos 71 anos quando o filme chegou aos cinemas americanos, já não precisa convencer ninguém de que poderia sair correndo atrás de um terrorista por vielas estreitas. Seu trunfo, agora, está no cansaço. Matt Turner não tem a elasticidade de Bryan Mills, nem a fúria limpa dos justiceiros que o ator encarnou em sua fase mais rentável; ele parece um sujeito que gostaria de pedir desculpas antes de salvar alguém, um homem de queixo pesado, olhos úmidos e uma paciência que se desfaz a cada nova instrução do chantagista. Lilly Aspell lhe oferece uma fragilidade menos ornamental que a esperada, especialmente quando Emily deixa de ser só a menina assustada no banco de trás e passa a medir o pai pela covardia de seus silêncios anteriores. Jack Champion recebe menos nuance como Zach, preso ao adolescente hostil de manual, e Dumezweni, excelente atriz, atravessa boa parte do filme como uma função narrativa de distintivo, voz firme e olhar incrédulo.

Um thriller eficiente por alguns quarteirões

A fragilidade de “A Chamada” está no que ele imagina ser revelação. A trama corre tão presa aos trilhos do relógio, da culpa financeira e da ameaça anônima que a identidade por trás do telefone deixa de ser uma surpresa e passa a ser uma formalidade. Antal tenta compensar essa previsibilidade com deslocamentos bruscos, explosões pontuais e uma Berlim que poderia sugerir frieza institucional, vigilância e anonimato, porém a cidade se reduz a cenário de perseguição, bem fotografado e pouco vivido. Ainda assim, há alguma graça nesse cinema de consumo rápido quando ele não finge grandeza. Matt não precisa redimir o capitalismo, desmontar uma conspiração internacional ou provar que ainda é o homem mais perigoso da sala. Basta manter o carro em movimento, suportar os filhos que o julgam com razão e tentar adivinhar de que lado virá o próximo golpe.

No saldo, “A Chamada” é um thriller mediano, curto, eficiente em suas melhores passagens e frouxo sempre que resolve transformar culpa conjugal e falência moral em diálogos de emergência. Neeson segura o volante com a gravidade de quem sabe estar repetindo um gesto muitas vezes ensaiado, e talvez esteja aí o interesse residual do filme: ver um ator enorme, cercado por uma história pequena, tentando fazer caber dentro de um carro blindado contra fuga a desordem de uma vida inteira. A bomba sob o assento ameaça menos que o tédio, e contra esse inimigo Antal vence por alguns quarteirões. Não por toda a corrida.


Filme: A Chamada
Diretor: Nimród Antal
Ano: 2023
Gênero: Ação/Suspense
Avaliação: 3/5 1 1
Leia Também