Vampiros deveriam ficar em caixões, castelos carcomidos, ruínas úmidas, florestas da Transilvânia, espelhos que nada devolvem e mulheres de camisola branca correndo por corredores longos demais. “Blade, o Caçador de Vampiros” entendeu que, no fim do século 20, essas criaturas já tinham mudado de endereço. Estavam em boates industriais, cobertas de couro, frequentando subsolos de Los Angeles ao som de música eletrônica, usando protetor solar, carros velozes, advogados e computadores. Stephen Norrington tira o monstro da moldura gótica e o joga numa cultura de neon, sangue cenográfico e arrogância corporativa, onde os mortos-vivos não querem apenas morder pescoços inocentes: querem administrar o mundo que os humanos pensam dominar.
Blade, criado nos quadrinhos da Marvel por Marv Wolfman e Gene Colan em “The Tomb of Dracula” nº 10, de 1973, chega ao cinema com Wesley Snipes no auge da forma física e de uma frieza rara. Nascido Eric Brooks, ele foi contaminado ainda no útero quando a mãe, Vanessa, foi atacada por um vampiro. O resultado dessa tragédia é um homem condenado a viver no intervalo mais incômodo entre duas espécies: tem a força, a velocidade, os sentidos aguçados e a sede dos vampiros, sem a vulnerabilidade fatal ao sol. Daí o apelido que o transforma em lenda entre os inimigos, “daywalker”, o que anda de dia. Snipes compreende que Blade não precisa falar muito porque seu corpo já diz quase tudo; cada movimento de espada, cada olhar atravessado por óculos escuros, cada explosão de violência tem a disciplina de alguém que não caça por prazer, e sim por vício moral.
Wesley Snipes e a fúria elegante dos anos 1990
A introdução, numa boate em que uma chuva de sangue cai sobre jovens excitados demais para perceberem que entraram no matadouro por vontade própria, continua sendo uma das aberturas mais eficientes do cinema de ação dos anos 1990. Ali, Norrington define o tom do longa sem pedir licença: cortes rápidos, corpos em transe, dentes à mostra, música latejando no peito da plateia e Blade surgindo como um carrasco elegante, de sobretudo preto, espada nas costas e munição suficiente para transformar o hedonismo vampírico num açougue. A cena envelheceu melhor que muitos efeitos visuais do filme porque nasce de uma ideia clara de encenação, não de uma pose. O sangue escorre, os vampiros se multiplicam, e o herói entra para restaurar uma ordem que ele mesmo jamais poderá habitar.
O roteiro de David S. Goyer põe Deacon Frost no centro da ameaça, e Stephen Dorff faz do vilão um adolescente eterno com ambições de imperador. Frost não tem a solenidade aristocrática dos anciãos vampiros, representados por figuras como Dragonetti, vivido por Udo Kier com aquela presença de quem parece ter saído de um retrato amaldiçoado. Ele é impaciente, vulgar, moderno, ressentido com a hierarquia de sangue puro que o despreza por ter sido transformado, e por isso mesmo funciona. Seu plano de invocar La Magra, o deus do sangue, depende de Blade como chave biológica, uma ideia de gibi levada com convicção suficiente para não afundar em ridículo. Dorff sorri como um moleque mimado diante do apocalipse, e essa desfaçatez dá ao antagonista uma energia que compensa sua falta de grandeza.
Kris Kristofferson entra em cena como Whistler, o velho mentor que recolheu Blade, ensinou-lhe a matar vampiros e fornece as armas, os soros e as frases secas que sustentam boa parte do charme do filme. A relação entre os dois é menos sentimental que funcional, e justamente por isso convence. Whistler não trata Blade como filho perdido nem como arma sagrada; trata-o como parceiro de guerra, sabendo que ambos já passaram do ponto em que a ternura pudesse salvá-los. Quando a hematologista Karen Jenson, interpretada por N’Bushe Wright, é mordida por Quinn e arrastada para esse submundo, o filme ganha a personagem que permite ao espectador entender as regras daquele universo sem que tudo vire explicação de manual. Karen investiga, resiste, formula antídotos, observa a sede de Blade com uma mistura de medo e interesse científico, e sua presença impede que a aventura se reduza a uma sucessão de golpes, tiros e dentes arrancados.
Antes do império Marvel, um anti-herói abriu caminho
Há, claro, os defeitos de uma produção que queria parecer futurista em 1998 e, por isso mesmo, carrega algumas marcas do período como tatuagens mal escolhidas. Certos efeitos digitais do clímax têm a textura de videogame antigo, a mitologia de La Magra é mais barulhenta que assustadora, e alguns diálogos parecem escritos para caber em pôsteres vendidos em lojas de shopping. Norrington, contudo, sabe manter o filme em movimento, e quando a computação gráfica ameaça trair o conjunto, Snipes volta a ocupar o quadro e recoloca tudo nos eixos. Sua presença é o verdadeiro efeito especial de “Blade”. Ele transforma um personagem que poderia parecer pândego — um meio-vampiro de katana, óculos escuros e frases monossilábicas — numa figura de autoridade física inapelável.
Vista hoje, a importância de “Blade” fica ainda mais evidente porque o filme antecede a canonização industrial dos super-heróis. Antes que a Marvel se convertesse numa máquina de produzir universos compartilhados, havia aqui um longa sujo, violento, meio insolente, sem medo de misturar terror, artes marciais, fantasia urbana, techno, humor seco e uma ideia bastante simples de vingança. Norrington não tenta santificar o protagonista, e Goyer tampouco o transforma em vítima chorosa. Blade é um homem que perdeu a mãe, perdeu a normalidade, perdeu a chance de pertencer a qualquer lado e decidiu fazer dessa desdita uma profissão. Pode haver algo de pueril em sua mitologia, e há, mas o filme nunca pede desculpas por isso. Ao contrário: acelera, morde, corta e deixa cinzas no chão.
No fim, “Blade, o Caçador de Vampiros” permanece como uma peça de transição entre o horror gótico e o super-herói industrial, entre o monstro de capa e o predador de boate, entre a fantasia de quadrinhos e a brutalidade coreografada do cinema de ação. Nem tudo nele se sustenta com a mesma força, e o clímax já não assusta como talvez pretendesse, porém Wesley Snipes continua atravessando a tela como se a noite lhe devesse explicações. E quando Blade recolhe a espada, ajusta os óculos e volta para a escuridão, fica a impressão de que os vampiros, coitados, nunca tiveram realmente uma chance.

