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Profissionais da morte costumam acreditar que só amadores precisam de convicção. Basta o contrato, o alvo, uma arma confiável e a distância emocional que transforma cadáveres em simples evidência de eficiência. “Os Especialistas” parte dessa ilusão velha, muito cara ao cinema de ação de machos lacônicos, para colocar Jason Statham no lugar que Hollywood lhe reservou com espantosa regularidade: o do sujeito que gostaria de abandonar a carnificina, desde que o mundo tivesse a gentileza de permitir. O longa de Gary McKendry, adaptado por Matt Sherring a partir de “The Feather Men”, de Ranulph Fiennes, não chega a ser a aventura sofisticada que imagina, porém tem a virtude de levar a sério o peso dos corpos que espalha pelo caminho.

Danny Bryce mata por ofício ao lado de Hunter, o veterano vivido por Robert De Niro, até que uma operação no México o obriga a encarar uma criança diante do pai assassinado. O susto moral não dura muito na tela, mas basta para que ele se recolha na Austrália, onde Anne, a conhecida de infância interpretada por Yvonne Strahovski, surge como promessa doméstica para um homem que não sabe muito bem o que fazer com a paz. A aposentadoria, claro, é uma fantasia breve. Hunter cai nas mãos de um xeque omanita moribundo, e Danny precisa executar três antigos agentes do SAS acusados de matar os filhos do velho durante a Guerra de Dhofar, arrancando de cada um uma confissão filmada e fazendo as mortes parecerem acidentes. É uma premissa deliciosamente absurda, desse tipo que melhora quando o filme não tenta explicá-la demais.

Statham entre a culpa e a pancadaria

McKendry conduz “Os Especialistas” como uma engrenagem de ferrugem nobre. Há passagens por Omã, Paris, Londres, desertos e hotéis indistintos, como se o mundo inteiro fosse apenas uma sucessão de esconderijos, corredores estreitos, salas de interrogatório e estradas adequadas a uma emboscada. Quando se fixa no procedimento — a infiltração, a chantagem, o corpo preparado para cair no lugar certo, a morte fabricada com aparência de fatalidade —, o filme ganha um vigor seco. Quando tenta inflar a conspiração com petróleo, interesses britânicos, intermediários cínicos e uma sociedade secreta de ex-militares chamada Feather Men, começa a carregar nos bolsos mais papéis do que consegue organizar. O suspense então se torna menos intrincado que atravancado.

Statham funciona porque entende a medida do próprio personagem. Danny não é um Hamlet de coldre, nem um arrependido de alta literatura; é um executor cansado que aprendeu a falar pouco para não denunciar a própria pobreza interior. O ator se move bem, bate melhor ainda e, nas cenas em que precisa apenas olhar para Hunter ou para Anne, deixa entrever uma humanidade rudimentar, suficiente para que o espectador aceite sua tentativa de sair do pântano. De Niro, em participação menos extensa do que o cartaz sugere, empresta a Hunter uma fadiga simpática, de velho lobo que ainda morde, embora já saiba que a selva mudou de dono. Clive Owen, de bigode, modos duros e olho de quem jamais se conformou com a aposentadoria dos outros, faz de Spike Logan o verdadeiro contraponto do protagonista: um homem que defende os seus com a mesma brutalidade com que Danny tenta salvar um só.

De Niro e Clive Owen dão peso ao jogo

É nas colisões entre Danny e Spike que o filme encontra sua razão de existir. A briga em que Statham luta preso a uma cadeira tem a graça bruta das melhores sequências de ação pré-franquias digitais, quando ainda se podia sentir o impacto de um corpo contra a parede e a dor de uma articulação dobrada no ângulo errado. Dominic Purcell e Aden Young, como Davies e Meier, dão ao grupo de Danny uma camaradagem funcional, quase de oficina mecânica, enquanto Ben Mendelsohn aparece com sua habitual vocação para tornar qualquer figura secundária um sujeito de passado duvidoso e futuro improvável. O problema é que McKendry nem sempre distingue complexidade de acúmulo, e os 117 minutos de projeção às vezes parecem mais ocupados em justificar a próxima reviravolta do que em extrair dela alguma tensão verdadeira.

Ainda assim, “Os Especialistas” resiste. Há no filme um prazer antiquado em ver homens mal pagos por sua consciência e muito bem pagos por sua pontaria tentando fingir que ainda têm algum controle sobre a própria história. A política internacional que atravessa a trama surge simplificada, quase pueril, reduzida a xeques, serviços secretos e soldados sacrificados em guerras que depois ninguém assume ter travado. Isso empobrece o alcance dramático, mas também dá ao longa sua estranha honestidade de pulp: todos ali sabem que o dinheiro fede, a lealdade custa caro e o último serviço quase nunca é o último. No fim, entre a poeira do deserto e o sangue mal lavado das mãos, Danny não vence coisa alguma. Apenas sobrevive tempo bastante para acreditar, outra vez, que pode ir embora.


Filme: Os Especialistas
Diretor: Gary McKendry
Ano: 2011
Gênero: Ação/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
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