A beleza sempre foi um negócio cruel, ainda que se apresente em frascos delicados, luz filtrada e mãos treinadas para tocar rostos alheios como se estivessem salvando almas. Em Los Angeles, onde todo mundo parece viver a dois dedos de um contrato milionário ou de uma humilhação pública irreversível, rugas, manchas e poros abertos adquirem o peso de faltas morais. “Skincare”, estreia de Austin Peters no longa de ficção, entende muito bem esse ridículo e o leva ao terreno pantanoso do thriller psicológico, fazendo da pele uma espécie de currículo, de escudo e de sentença. Hope Goldman, a esteticista de celebridades vivida por Elizabeth Banks, está a ponto de lançar sua própria linha de produtos, aparecer na televisão local e transformar uma carreira construída com massagens faciais, sorriso branco e frases motivacionais em império. O problema é que impérios pequenos também desabam.
Hope não é exatamente uma coitadinha perseguida pelo mundo. Banks a compõe como uma mulher que sorri com todos os dentes enquanto calcula o prejuízo, mede o prestígio de cada cliente, finge naturalidade ao falar de hidratação e colágeno e deixa escapar, nos olhos cada vez mais arregalados, a certeza de que sua vida inteira depende de não parecer desesperada. O roteiro de Sam Freilich, Deering Regan e do próprio Peters começa a apertá-la quando Angel Vergara, o facialista interpretado por Luis Gerardo Méndez, abre uma loja do outro lado da rua, num gesto comercial banal que Hope recebe como uma declaração de guerra. Angel tem charme, autoconfiança e uma cordialidade quase irritante; Méndez o defende sem transformá-lo de imediato num vilão de opereta, o que ajuda a sustentar a dúvida por algum tempo.
Vaidade como ameaça pública
Daí em diante, “Skincare” passa a colecionar pequenas agressões com um prazer algo perverso. Pneus aparecem cortados, mensagens comprometedoras circulam, a reputação de Hope começa a vazar pelos cantos como maquiagem ruim sob o sol da Califórnia. Austin Peters filma a cidade como um paraíso barato, feito de fachadas rosadas, salas de espera assépticas, letreiros luminosos e estacionamentos onde qualquer pessoa pode sumir por alguns minutos e voltar com outra versão de si mesma. A fotografia de Christopher Ripley acentua esse verniz de comercial de creme noturno em decomposição, e a trilha de Fatima Al Qadiri ajuda a dar ao filme uma vibração de paranoia levemente farsesca, como se Brian De Palma tivesse sido contratado para dirigir um anúncio de sérum antienvelhecimento depois de uma noite mal dormida.
A entrada de Jordan, o sujeito meio prestativo, meio oportunista vivido por Lewis Pullman, desloca o filme para uma zona ainda mais incômoda. Ele aparece como aliado, conselheiro, segurança improvisado, talvez uma dessas criaturas que Los Angeles produz aos montes, gente com vocabulário de autoajuda, ambição miúda e uma capacidade notável de farejar fragilidades. Pullman tem a inteligência de deixar Jordan sempre um pouco aquém da explicação completa; seu sorriso parece atrasado em relação à fala, sua gentileza vem com um resto de ameaça, e é nesse descompasso que “Skincare” encontra boa parte de sua graça venenosa. Nathan Fillion, como Brett Wright, o apresentador de TV que pode ungir Hope diante do público ou empurrá-la para o anedotário local, surge como a personificação perfeita dessa mídia de bairro metida a tribunal moral, onde uma mulher pode ser vendida como especialista num dia e convertida em aberração no outro.
Elizabeth Banks contra o próprio reflexo
Peters acerta quando compreende que a história não precisa de grandeza para ser inquietante. A sabotagem de uma pequena empresária da beleza, inspirada de maneira frouxa num caso real de West Hollywood, funciona justamente porque parece mesquinha, estreita, quase pândega. Hope não está disputando a Casa Branca, um banco suíço ou o comando de uma máfia, e sim um punhado de clientes ricas, uma aparição televisiva, o aluguel em dia, a chance de colar seu nome em embalagens bonitas. A desproporção entre o tamanho da ambição e a violência dos expedientes dá ao filme sua melhor textura. Quando Hope atravessa a rua para medir Angel com os olhos, quando tenta manter a voz mansa diante de mais uma vergonha pública, quando se agarra a Jordan como quem aceita ajuda de um desconhecido apenas porque já não consegue respirar sozinha, “Skincare” deixa de ser só um suspense sobre concorrência e vira uma comédia escura sobre a falência da imagem pessoal como último patrimônio.
Nem tudo, claro, recebe o mesmo tratamento. O filme às vezes se contenta com a superfície cintilante do próprio assunto e hesita em afundar de vez na sujeira que anuncia. Há personagens laterais que entram e saem como acessórios de bancada, úteis para colorir o salão de Hope, pouco relevantes quando a intriga pede mais corpo. Michaela Jaé Rodriguez, por exemplo, merecia uma função menos decorativa, e a reta final, ao organizar as peças do quebra-cabeça, perde um pouco da febre que vinha se formando nas cenas anteriores. Ainda assim, Elizabeth Banks sustenta a empreitada com admirável falta de vaidade, permitindo que Hope fique antipática, ridícula, aflita, autoritária, frágil, sem pedir desculpas por nenhuma dessas variações.
“Skincare” é mais esperto quando abandona a pretensão de grande thriller e se assume como um noir cosmético, uma historieta cavilosa sobre gente que acredita poder controlar a própria aparência até descobrir que a máscara também tem vida útil. Hope Goldman passa o filme inteiro tentando restaurar uma pele social já comprometida por rachaduras antigas, e Austin Peters, mesmo sem acertar todos os golpes, entende o essencial. Em Los Angeles, até o colágeno tem inimigos.

