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Em “A Outra”, drama histórico de 2008 dirigido por Justin Chadwick, Natalie Portman, Scarlett Johansson e Eric Bana revivem, na Inglaterra do século 16, a disputa das irmãs Anne e Mary Boleyn pelo olhar de Henrique VIII, num jogo familiar em que amor, ambição e poder se misturam com o tipo de confusão que hoje renderia grupo de WhatsApp silenciado e terapia para três gerações.

“A Outra” começa no campo, longe da pompa da corte, mas já cercado por interesses bastante terrenos. Sir Thomas Boleyn (Mark Rylance) e o duque de Norfolk (David Morrissey) enxergam na aproximação com o rei Henrique VIII (Eric Bana) uma chance de elevar o nome da família. Para isso, miram Anne Boleyn (Natalie Portman), jovem bonita, vaidosa, inteligente e treinada para circular num ambiente em que cada gesto pode render prestígio ou desgraça.

A ideia é simples, embora moralmente torta. Anne deve chamar a atenção do rei, conquistar seu favor e, com isso, abrir caminho para que os Boleyn ganhem influência. O plano, porém, sai do controle quando Henrique VIII se interessa por Mary Boleyn (Scarlett Johansson), irmã mais doce, mais reservada e recém-casada com William Carey (Benedict Cumberbatch). A família, que tratava as filhas quase como cartas num baralho nobre, passa a usar Mary como nova aposta.

Justin Chadwick apresenta esse arranjo sem transformar a história apenas em romance de época com vestidos bonitos e salões iluminados. Há luxo, sim, mas ele vem acompanhado de uma sensação permanente de cálculo. A corte inglesa surge como um lugar onde a beleza abre portas, mas não garante proteção. Mary entra nesse mundo com menos sede de poder do que Anne, e talvez por isso pareça ainda mais vulnerável. Sua presença ao lado do rei traz vantagens para a família, mas cobra dela uma perda íntima difícil de ignorar.

Mary ocupa o centro da corte

Mary Boleyn, vivida por Scarlett Johansson, é uma personagem que poderia parecer passiva em mãos menos cuidadosas. O filme, porém, a apresenta como alguém pressionada por todos os lados. Ela obedece à família, atende ao desejo do rei e tenta preservar algum senso de decência num ambiente pouco interessado em decência. Seu casamento fica em segundo plano, sua vontade quase nunca é prioridade e seu corpo passa a ser tratado como passagem para um cargo, uma propriedade ou uma promessa de riqueza.

Scarlett Johansson dá a Mary uma delicadeza que não deve ser confundida com fraqueza. Ela sofre, hesita, aceita e também percebe o peso de cada escolha. O afeto por Henrique VIII não surge apenas como obrigação, mas jamais fica livre da força política que cerca a relação. O rei pode parecer sedutor, atencioso e até apaixonado, mas continua sendo o homem mais poderoso do reino. Quando ele se aproxima, ninguém ao redor de Mary pergunta se aquilo lhe convém. Todos querem saber o que a família pode ganhar.

É nesse ponto que “A Outra” ganha fôlego. A disputa entre as irmãs não nasce de uma simples rivalidade feminina, dessas que o cinema adora vender com olhar atravessado e porta batida. Anne e Mary são colocadas em lados opostos por uma família que transformou parentesco em investimento. Uma recebe o ressentimento de ter sido deixada de lado. A outra carrega a culpa de ocupar um lugar que nunca pediu por completo. Entre as duas, Henrique VIII circula com a segurança de quem raramente ouve um não.

Anne cobra seu espaço

Anne Boleyn, interpretada por Natalie Portman, é a figura mais inquieta do filme. Ela tem ambição, orgulho e uma capacidade fria de ler o ambiente ao redor. Quando perde a atenção inicial do rei para Mary, Anne não desaparece. Ao contrário, passa a observar melhor os códigos da corte e a preparar seu retorno ao centro da disputa. Natalie Portman trabalha a personagem com firmeza, evitando que ela vire apenas vilã ou vítima. Anne pode ser dura, mas também é produto de um mundo que ensinou mulheres a sobreviverem pela influência que conseguiam arrancar dos homens.

A tensão cresce porque Anne não quer apenas ser desejada. Ela quer ser reconhecida, obedecida e levada a sério num espaço onde mulheres são ouvidas apenas enquanto interessam. O roteiro mostra como essa fome por relevância se torna perigosa quando encontra um rei insatisfeito com seu casamento e obcecado pela ideia de deixar um herdeiro. Catarina de Aragão (Ana Torrent), esposa de Henrique VIII, representa a ordem oficial que Anne ameaça. Sua presença lembra que o romance real não se limita a quartos fechados. Ele mexe com religião, sucessão, alianças e estabilidade política.

Eric Bana interpreta Henrique VIII com uma mistura de charme e autoridade que ajuda a explicar a atração exercida sobre as irmãs Boleyn. Ele não surge como monstro desde a primeira aparição. O perigo está justamente nessa camada de cordialidade. Henrique sorri, seduz e promete, mas cada promessa tem o peso de uma coroa. Quando deseja Mary, a corte se adapta. Quando se interessa por Anne, a estrutura inteira começa a se mover em torno desse desejo. O rei ama com privilégios de Estado.

A corte como armadilha elegante

O filme acerta ao mostrar que a corte é menos um cenário decorativo e mais uma máquina social cheia de portas, olhares e favores. Salões, corredores e aposentos determinam quem pode falar, quem deve esperar e quem será afastado. A direção de Justin Chadwick aposta numa encenação vistosa, mas o luxo não apaga a dureza das relações. Pelo contrário, torna tudo um pouco mais cruel. Quanto mais bonito o ambiente, mais incômoda fica a percepção de que Anne e Mary têm pouca margem para errar.

Kristin Scott Thomas, como Lady Elizabeth Boleyn, traz uma das presenças mais interessantes do elenco de apoio. Ela observa os planos do marido e do irmão com uma mistura de reprovação e impotência. Sua personagem sabe que as filhas estão sendo empurradas para um jogo perigoso, mas sua autoridade dentro da própria casa é pequena. Em algumas passagens, basta seu olhar para sugerir o que ninguém quer dizer em voz alta. A mãe vê o risco antes de muitos, mas não possui força suficiente para impedir o avanço da família rumo à corte.

Há também um componente quase cruelmente irônico na maneira como os Boleyn tratam ascensão social como se fosse administração doméstica. Uma filha agrada o rei, outra deve esperar sua vez, um casamento vira detalhe e a honra familiar muda de definição a cada nova conveniência. O filme não precisa forçar comicidade para que certas situações revelem seu absurdo. A nobreza aparece cheia de etiqueta, mas com uma pressa vulgar por vantagem. Em alguns momentos, a diferença entre palácio e feira parece ser apenas o preço do tecido.

Duas irmãs diante do poder

“A Outra” simplifica alguns aspectos da história real e toma liberdades dramáticas, algo comum em produções desse tipo. Ainda assim, funciona quando mantém o foco nas irmãs e nas pressões que as cercam. Mary representa a tentativa de preservar alguma ternura num ambiente que cobra submissão. Anne representa a resposta mais feroz de quem aprendeu que delicadeza, sozinha, não garante sobrevivência. O encontro entre as duas não pede torcida fácil. Pede atenção ao modo como cada uma tenta escapar de uma prisão diferente.

Natalie Portman dá nervo e inteligência a Anne. Scarlett Johansson oferece a Mary uma humanidade ferida, nunca pequena. Eric Bana sustenta Henrique VIII como um homem capaz de transformar desejo em decisão política. Em “A Outra”, o romance tem perfume de corte, mas deixa marcas de contrato. Quando as portas do palácio se abrem, ninguém entra de graça.


Filme: A Favorita
Diretor: Justin Chadwick
Ano: 2008
Gênero: Biografia/Drama/História/Romance
Avaliação: 3.5/5 1 1
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