Em 1995, Gotham City ganhou uma aparência mais colorida e extravagante sob a direção de Joel Schumacher. Em “Batman Eternamente”, Bruce Wayne e Batman (Val Kilmer) enfrentam Duas-Caras (Tommy Lee Jones) e o Enigma (Jim Carrey), dois criminosos interessados em destruir o herói por razões pessoais. Enquanto o antigo promotor Harvey Dent culpa Batman pelo acidente que desfigurou seu rosto, Edward Nygma usa uma invenção capaz de retirar informações da mente humana. A disputa coloca em perigo a população, a identidade de Bruce e as poucas pessoas que conseguem se aproximar dele.
Duas-Caras já foi Harvey Dent, um promotor público respeitado e aliado de Batman. Depois de ser atingido por ácido durante um julgamento, ele passa a responsabilizar o vigilante por não ter impedido o ataque. Tommy Lee Jones interpreta o personagem de maneira espalhafatosa, com gargalhadas, ameaças e gestos enormes. Seu Harvey quase desaparece sob a maquiagem. Resta um criminoso disposto a transformar qualquer assalto em espetáculo.
O vilão decide o destino das pessoas com uma moeda. Um dos lados representa sua antiga aparência, enquanto o outro carrega marcas semelhantes às de seu rosto. A escolha permite que Harvey transfira para o acaso a responsabilidade por seus atos. Se a moeda aprova, ele mata. Se o resultado o contraria, precisa aceitar. O método também oferece a Batman uma pequena chance de prever seu comportamento.
Bruce Wayne, por sua vez, administra a Wayne Enterprises enquanto continua patrulhando Gotham. Val Kilmer interpreta o milionário com sobriedade e reserva. Seu Bruce fala pouco, observa bastante e parece cansado de esconder uma parte da vida. Essa contenção combina com o homem ferido pelas lembranças do assassinato dos pais, embora perca força quando cercada pelos vilões muito mais expansivos.
Edward Nygma quer reconhecimento
Na Wayne Enterprises, o cientista Edward Nygma desenvolve uma tecnologia capaz de transmitir imagens televisivas para o cérebro. Ele procura Bruce Wayne porque deseja autorização para continuar a pesquisa. Bruce percebe que a invenção pode manipular a mente dos usuários e recusa o projeto. Para Nygma, a negativa significa uma humilhação.
Jim Carrey assume o personagem com a energia elástica que marcou sua carreira nos anos 1990. Nygma fala depressa, muda o tom da voz e transforma cada encontro em uma apresentação particular. Há algo engraçado em seu desespero por atenção, mas a graça também revela uma vaidade perigosa. Ele deseja ser admirado por Bruce e, quando não recebe esse reconhecimento, decide destruí-lo.
Nygma deixa a empresa, adota o nome Enigma e começa a enviar charadas para Bruce. Ao mesmo tempo, aperfeiçoa sua criação. O aparelho oferece entretenimento aos moradores de Gotham, mas também retira informações de suas mentes. Quanto mais pessoas utilizam a tecnologia, mais conhecimento Nygma acumula. Seu objetivo ultrapassa o enriquecimento. Ele quer descobrir tudo o que Bruce esconde, inclusive a ligação do empresário com Batman.
A parceria com Duas-Caras nasce dessa necessidade. Nygma precisa de dinheiro e proteção para colocar seu produto nas casas de Gotham. Harvey possui homens armados e disposição para atacar. Em troca, recebe do cientista recursos para perseguir Batman. A união é barulhenta, extravagante e competitiva. Jones e Carrey parecem disputar quem faz a careta mais demorada. Algumas cenas ficam divertidas. Outras cansam antes de terminar.
Dick Grayson perde a família
A vida de Bruce muda durante uma apresentação do circo da família Grayson. Duas-Caras invade o local e ameaça o público. Dick Grayson (Chris O’Donnell), um jovem acrobata, tenta impedir a tragédia, mas seus parentes são mortos. Bruce presencia a perda e reconhece no rapaz a mesma revolta que sentiu quando ficou órfão.
Bruce leva Dick para a Mansão Wayne. O convite nasce de uma identificação sincera, embora o milionário tenha dificuldade para demonstrar afeto. Dick não quer dinheiro, conforto ou proteção. Ele deseja vingança contra Duas-Caras. Sua habilidade física vem dos anos passados no circo, mas ainda falta experiência para enfrentar criminosos que transformam Gotham em território particular.
Chris O’Donnell dá ao rapaz uma combinação de raiva e insolência juvenil. Dick mexe no que não deveria, entra em áreas proibidas e percebe que Bruce guarda um segredo. Quando descobre a existência da Batcaverna, pede para participar da caçada. Ele quer assumir o nome Robin e lutar ao lado de Batman.
Bruce rejeita a ideia porque teme alimentar a mesma sede de vingança que controla o rapaz. A preocupação faz sentido, mas também revela certa hipocrisia. Batman passa as noites perseguindo criminosos devido a um trauma de infância, enquanto pede a Dick que escolha uma vida diferente. Alfred (Michael Gough) acompanha o impasse com paciência e afeto. O mordomo percebe que Bruce pode proteger o jovem sem obrigá-lo a permanecer à margem.
Chase se aproxima de Bruce
A psicóloga Chase Meridian (Nicole Kidman) trabalha com a polícia e estuda o comportamento de Duas-Caras. Ela também analisa as charadas enviadas pelo Enigma e se aproxima de Bruce durante a investigação. Chase se interessa tanto pelo milionário quanto pelo homem mascarado, sem saber que os dois são a mesma pessoa.
Nicole Kidman interpreta a personagem com segurança, inteligência e uma sensualidade bastante acentuada pelo roteiro. Chase não ocupa apenas o lugar de interesse amoroso. Ela reconhece padrões nas ameaças, ajuda Bruce a examinar seus pesadelos e percebe que a identidade de Batman está ligada a feridas antigas. O problema é que algumas falas transformam a psicóloga em admiradora entusiasmada do uniforme. A competência profissional acaba dividindo espaço com um flerte pouco discreto.
Bruce considera abandonar a vida de vigilante para viver esse relacionamento. Antes de tomar uma decisão, precisa lidar com os enigmas, a insistência de Dick e os novos ataques de Duas-Caras. A possibilidade de ser feliz depende de uma escolha que ele adia há anos. Bruce quer proximidade, mas sua identidade secreta coloca Chase em perigo e afasta qualquer pessoa interessada em permanecer ao seu lado.
Uma Gotham tomada pelo excesso
Joel Schumacher abandona boa parte da atmosfera sombria dos filmes dirigidos por Tim Burton. Sua Gotham é coberta por néon, estátuas gigantes, prédios inclinados e cores intensas. Os cenários parecem pertencer a uma cidade construída durante uma madrugada de euforia. Existe beleza nessa ousadia, embora tantos elementos disputem a atenção do público.
A mudança também aparece na ação. Batman usa veículos renovados, enfrenta armadilhas maiores e participa de sequências pensadas para destacar brinquedos, uniformes e acessórios. “Batman Eternamente” abraça o entretenimento popular sem vergonha. O resultado tem agilidade e personalidade, mas frequentemente deixa os sentimentos dos personagens escondidos atrás da decoração.
Val Kilmer encontra seus melhores instantes quando Bruce precisa falar sobre os pais ou decidir o destino de Dick. Ele oferece uma interpretação contida em um filme que prefere gritar. Jim Carrey domina muitas cenas porque transforma o Enigma em uma criatura imprevisível. Tommy Lee Jones adota energia semelhante, embora seu Duas-Caras perca a complexidade que a história de Harvey Dent poderia oferecer.
“Batman Eternamente” é uma aventura irregular, divertida e muito ligada ao cinema comercial dos anos 1990. O enredo reúne vingança, manipulação mental, romance e a formação de uma nova parceria. Nem todas essas frentes recebem o mesmo cuidado, mas os objetivos dos personagens permanecem compreensíveis. Bruce precisa impedir que dois inimigos descubram seu segredo, proteger Chase e decidir se aceita Robin ao seu lado. Quando a cidade volta a pedir ajuda, esconder-se na Mansão Wayne já deixou de ser uma opção.

