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“México 86” transforma uma disputa administrativa ligada à Copa do Mundo de 1986 em uma comédia dramática que mistura futebol, política, ambição e vaidade. Dirigido por Gabriel Ripstein e estrelado por Diego Luna, o longa acompanha um período decisivo da história mexicana, quando a desistência da Colômbia abriu uma oportunidade inesperada para que o México se tornasse o primeiro país a sediar duas Copas do Mundo. O filme chega em um momento simbólico, às vésperas do Mundial de 2026, e utiliza um episódio pouco conhecido para observar os bastidores de uma conquista que nasceu muito longe dos gramados.

Martín de la Torre (Diego Luna) trabalha nos bastidores da estrutura esportiva mexicana. Sua rotina é marcada por tarefas burocráticas, chefes exigentes e pouca perspectiva de crescimento. Casado, mas envolvido com a vizinha Susana Gómez-Mont (Karla Souza), ele vive uma existência que parece menor do que os sonhos que alimenta.

Tudo muda quando a Colômbia abandona a organização da Copa de 1986. De repente, uma vaga extremamente disputada surge no cenário internacional. O que para muitos parece apenas uma questão esportiva, para Martín representa a chance de construir prestígio, ganhar influência e deixar de ser apenas mais um funcionário perdido entre pilhas de documentos e reuniões intermináveis.

A partir desse momento, ele passa a circular por ambientes que antes observava à distância. Telefones tocam sem parar, portas se abrem e fecham, promessas são feitas e interesses começam a se cruzar. Cada novo contato oferece uma possibilidade de avanço, mas também cria obstáculos que exigem novas articulações.

O poder longe dos estádios

Apesar de girar em torno da Copa do Mundo, “México 86” dedica pouca atenção ao futebol dentro das quatro linhas. O interesse de Gabriel Ripstein está concentrado nos corredores onde as decisões realmente acontecem.

O filme apresenta uma sucessão de encontros entre dirigentes esportivos, empresários da comunicação e figuras influentes que enxergam o torneio como uma oportunidade política e econômica. O troféu mais cobiçado não é uma taça. É a capacidade de influenciar uma decisão internacional.

Nesse ambiente surge Emilio Azcárraga (Daniel Giménez Cacho), poderoso empresário ligado ao futebol mexicano. Sua relação com Martín se transforma em um dos motores da narrativa. Os dois possuem interesses em comum, mas também alimentam egos enormes. Cada conversa entre eles parece esconder uma disputa silenciosa sobre quem possui mais influência e quem será lembrado quando a história for contada.

O roteiro mostra como alianças podem nascer pela manhã e perder valor antes do anoitecer. Nada parece definitivo. Todos desejam algo e poucos estão dispostos a abrir mão de qualquer vantagem.

Diego Luna carrega a narrativa

O melhor de “México 86” é a interpretação de Diego Luna. Martín é um personagem difícil de admirar integralmente. Ele mente, manipula situações e aproveita qualquer oportunidade que surge pelo caminho. Ainda assim, Luna consegue torná-lo fascinante.

O ator constrói um homem movido por uma mistura curiosa de autoconfiança e insegurança. Martín fala muito, promete mais do que deveria e age com uma convicção que frequentemente esconde fragilidades. Quanto mais ele sobe, mais percebe que o ambiente ao seu redor pode engoli-lo a qualquer momento.

Karla Souza também desempenha um papel importante como Susana. Embora ocupe um espaço menor na narrativa, sua personagem funciona como uma presença capaz de revelar aspectos que Martín prefere esconder. Ela observa os acontecimentos por outro ângulo e ajuda a expor as contradições de um homem disposto a sacrificar bastante para alcançar seus objetivos.

Entre a sátira e a história

Gabriel Ripstein escolhe abordar acontecimentos reais por meio da sátira. A decisão funciona porque impede que o longa se transforme em uma simples reconstituição histórica. Existe uma energia leve atravessando toda a narrativa, mesmo quando o assunto envolve corrupção, interesses políticos ou disputas de poder.

Em vários momentos, situações que deveriam parecer extremamente sérias ganham contornos quase absurdos. O contraste produz algumas das melhores passagens do filme. Afinal, existe algo naturalmente cômico em observar homens influentes discutindo questões de enorme importância enquanto tentam proteger vaidades bastante frágeis.

Essa combinação de humor e crítica ajuda a tornar acessível um tema que poderia facilmente parecer distante para parte do público. Mesmo quem não acompanha futebol consegue compreender os mecanismos de influência que movimentam a história.

Uma história maior que o futebol

O aspecto mais interessante de “México 86” talvez seja sua capacidade de usar o futebol apenas como ponto de partida. O longa fala sobre um torneio internacional, mas dedica sua atenção às pessoas que desejam transformar um evento esportivo em instrumento de prestígio.

Martín acredita estar trabalhando pela imagem de seu país. Em muitos momentos, porém, surge a impressão de que ele também deseja gravar seu próprio nome naquela conquista. Essa ambiguidade sustenta a narrativa do início ao fim.

Gabriel Ripstein entrega um filme divertido, ágil e marcado por boas atuações. Embora algumas questões políticas pudessem receber maior desenvolvimento, a obra permanece interessante por retratar um capítulo pouco conhecido da história do futebol mundial. Ao colocar os bastidores no centro da ação, “México 86” lembra que grandes eventos esportivos costumam ser definidos muito antes do apito inicial, em salas de reunião onde influência, dinheiro e prestígio possuem tanto peso quanto qualquer resultado dentro de campo.


Filme: Mexico 1986
Diretor: Gabriel Ripstein
Ano: 2026
Gênero: Comédia/Drama/Esporte/História
Avaliação: 3.5/5 1 1
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