Discover

Relações são quase sempre pautadas por crises, e não é incomum encontrar homens e mulheres que digam serem adeptos de um súbito gelo a fim de que a chama do amor arda outra vez, com mais força. Qualquer medida que não contemple mudanças profundas de parte a parte, com direito à investigação minuciosa de questões graves de um passado remoto que teima em voltar sob a forma de ondas de terror, há de ser inócua — e tanto pior se enxergada por um único lado, como se o problema não fosse de ambos. Grace MacCaullay, a belicosa protagonista de “Casamento Sangrento: A Viúva”, sobreviveu à noite de núpcias que escondia uma caçada na qual ela era a presa, mas está algemada a um leito de hospital, onde é visitada por um detetive que atribui-lhe a culpa pela carnificina na mansão. Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett retomam eventos do primeiro filme, dobrando a aposta numa anti-heroína com carisma para dar e vender; um enredo à primeira vista banal, mas que destrincha assuntos sérios com metáforas sagazes e cenas de um nonsense estimulante; e uma cornucópia de boas referências para além do gênero.

Terror e humor

Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett firmam-se como uma grife do terror, e “Casamento Sangrento: A Viúva” sabe fazer do tétrico uma passagem para o humor macabro, a exemplo do que se vê em “Pânico” (2022) e “Pânico 6” (2023), e reflexões acerca das complexas ambiguidades do homem, caso de “Abigail” (2024), sobre uma garota rica e cheia de traumas contra os quais duela num embate com notas de autodestruição, mantida num cativeiro milimetricamente pensado para encarcerá-la, até que seus algozes ponham a mão no milionário resgate. O roteiro de Guy Busick e R. Christopher Murphy começa de onde o longa de 2019 havia parado, mostrando uma Grace lavada em sangue deixar seu inferno ao som da canção de Sven Faulconer, sobre alguém que pergunta se ainda será amada amanhã. Grace sobrevive à gincana diabólica promovida pela família do agora finado marido, Daniel Le Domas, e por essa razão tem direito a reivindicar o trono de Chester Danforth, o magnata que patrocina a brincadeira. Esplêndida, Samara Weaving continua a ditar o ritmo do filme, malgrado tenha de dividir este mérito com David Cronenberg e Kathryn Newton, na pele de Faith, a irmã caçula de Grace. Pode não parecer, mas em “Casamento Sangrento: A Viúva” há mesmo muita graça e fé.


Filme: Casamento Sangrento: A Viúva Ready or Not 2: Here I Come
Diretor: Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett
Ano: 2026
Gênero: Comédia/Terror
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

Leia Também