Casamentos longos não costumam desmoronar no momento em que um estranho atravessa a porta. O trabalho de demolição começa antes, durante jantares em que ninguém escuta o outro, noites em que os corpos se habituam à distância e manhãs organizadas com tamanha precisão que já não sobra espaço para a surpresa. Lucero conhece essa disciplina doméstica. Advogada bem-sucedida, mãe de dois filhos e esposa de Fernando há vinte anos, ela parece ter alcançado a configuração social que deveria garantir-lhe tranquilidade. Em “Desejo”, a tranquilidade é o nome elegante de uma insatisfação que todos na casa preferem ignorar.
Dirigido por Teresa Simone, com roteiro de Giulia Cardamone e Vanessa Miklos, o thriller erótico mexicano de 2026 coloca Ludwika Paleta no centro de uma família abastada da Cidade do México. José María Yazpik interpreta Fernando, Óscar Casas vive Matías, o jovem treinador de natação contratado para orientar Viviana, a filha do casal encarnada por Pilar Pascual. A chegada do rapaz desloca rapidamente as relações da casa, primeiro por sua presença física, depois pela atenção direta que oferece a Lucero.
Teresa Simone filma a aproximação dos dois junto à piscina, espaço em que o corpo está sempre exposto e qualquer toque pode passar por correção técnica. Matías fora nadador de alto rendimento e carrega a frustração de uma carreira interrompida, além de um histórico de dependência que o roteiro apresenta aos poucos. Lucero observa nele a juventude, a disponibilidade e uma liberdade meio fraudulenta; ele percebe naquela mulher uma mistura de autoridade, dinheiro e carência que lhe permite entrar num universo ao qual nunca pertenceu. O caso começa sem promessas sentimentais e logo adquire a voracidade das relações em que uma parte deseja controlar aquilo que a outra tratava como intervalo.
O adultério sob a luz da piscina
Ludwika Paleta impede que Lucero pareça uma caricatura da burguesa entediada. A atriz trabalha com hesitações concretas, a mão que demora sobre o telefone, o susto ao ouvir um ruído dentro de casa, a alteração súbita do rosto quando Fernando ou Viviana mencionam Matías. Sua personagem sabe avaliar riscos nos tribunais e perde essa competência ao lidar com o próprio corpo. Paleta preserva a inteligência de Lucero mesmo nas decisões mais imprudentes, fazendo com que o adultério revele uma mulher em crise sem transformá-la numa mártir da falta de sexo.
Óscar Casas oferece a Matías uma combinação eficaz de sedução e ameaça. No começo, o treinador parece apenas um rapaz ciente do efeito que provoca; depois, a necessidade de permanecer perto de Lucero endurece seus gestos. O problema surge quando o roteiro começa a acumular explicações para a instabilidade do personagem. A carreira esportiva frustrada, as drogas, a precariedade econômica e a obsessão amorosa formam um prontuário mais útil à trama que à construção de alguém verdadeiramente imprevisível. Casas conserva o perigo, ainda que o texto insista em anunciá-lo.
Fernando ocupa um lugar menos vistoso, e José María Yazpik tira proveito dessa discrição. O marido não é apresentado como monstro, tampouco como santo traído. Ele participa do esvaziamento do casamento, trata a ausência de intimidade como assunto secundário e demora a perceber que a família organizada ao redor de suas decisões começa a agir fora de seu campo de visão. Quando suspeita de Lucero, seu comportamento traz o ressentimento de quem se julgava proprietário de uma estabilidade construída pelos dois.
A filha entra no jogo
A entrada de Viviana no campo de interesse de Matías conduz “Desejo” para um terreno mais ardiloso. A filha também se sente atraída pelo treinador, sem conhecer a extensão da relação mantida por ele com a mãe, e a rivalidade subterrânea poderia render um estudo cruel sobre idade, vaidade e competição dentro da família. Simone toca nessa ferida sem aprofundá-la. O filme prefere avançar rumo ao suspense criminal, com ciúmes, ameaças e uma morte que reorganiza as lealdades, decisão que acelera os 98 minutos e empobrece o conflito mais incômodo que havia criado.
A fotografia transforma residências, escritórios e clubes em ambientes impecáveis, sempre prontos para ocultar alguma sujeira. O erotismo segue a mesma lógica, com corpos enquadrados sob luz calculada, lençóis arrumados e água azul envolvendo os amantes. Essa elegância visual combina com Lucero, mulher treinada para conservar a aparência enquanto tudo se desorganiza por dentro, embora também torne a paixão excessivamente publicitária em algumas sequências.
“Desejo” encontra sua melhor expressão quando observa Ludwika Paleta atravessando a casa depois de uma mentira, obrigada a conversar com o marido, olhar a filha e fingir que Matías continua sendo somente o treinador. Quando tenta superar essa tensão com reviravoltas, o filme deixa escapar parte da sordidez que havia capturado. A piscina permanece límpida até o fim. A família que se reúne em torno dela já não consegue esconder o que apodreceu sob a água.

