Quem não recebe a graça de nascer com o espírito já blindado pela força da resiliência, propriedade da física que, aplicada aos seres humanos, define o quão inabaláveis podemos ser frente aos choques, precisa começar rápido sua busca por esse atributo misterioso, imprescindível a determinada altura da vida. Somos obrigados a compreender o quanto antes que é preciso muito empenho para encontrar a felicidade possível, sós ou junto daqueles que conseguem provar-nos que estar vivo, num tempo e num mundo assolados por maldade e niilismo, continua a valer a pena. Stelios Kammitsis encontra o preciso tom de melancolia e esperança em “O Homem Com As Respostas”, uma história de amor nada óbvia. Kammitsis convida o espectador a uma viagem cheia de idas e vindas, numa metáfora perfeita para a jornada de autoconhecimento e acerto de contas de um espírito irrequieto, com direito a uma paixão tão inesperada quanto salvífica.
Coração valente
Durante nossa trajetória, regida pela entidade divina e macabra que mantém-nos aqui por um tempo muito curto ou longo demais, sujeitamo-nos a caprichos cujas razões ninguém pode conhecer de todo. Road movies têm o condão de transportar mais do que personagens e atores, levando também a história e o público pelas tantas descobertas que um filme oferece. O diretor-roteirista chega a esse resultado após uma construção minuciosa da tensão dramática, ancorada em dois rapazes jovens e bonitos, Victoras, cuja avó, sua parente mais próxima, morre depois de um bom tempo hospitalizada na Grécia, e o personagem-título. Mathias parece cair do azul com a voz angelical e o charme de um demônio, e os dois permanecem juntos, a contragosto do primeiro, que resiste, lutando com sua natureza. Kammitsis guarda para o desfecho a explicação para Mathias querer continuar ao lado de um parceiro de viagem cuja ranzinzice chega a ser engraçada por contrastar com o rosto pueril. Vasilis Magouliotis alia esses recursos mais fáceis ao total domínio da personalidade autoindulgente de Victoras, ainda mais incômoda nos bate-bocas com Mathias, interpretado por um Anton Weil que dá nos nervos, mas também comove.

