Fiquem calmos que eu explico. Não estou a me gabar. Cheguei, há pouco, de Portugal. Se ainda não conhecem esse país europeu, por favor, façam-no, assim que possível. Sim. Tá osso. Eu sei sobre o câmbio desfavorável. Senti no bolso os seus efeitos nocivos. Isso, contudo, não embaça a beleza das terras lusitanas, que são limpas, organizadas, produtivas, a transbordar história, à qual estamos umbilicalmente atrelados. Conheçam Portugal, mas, tomem cuidado com os garçons.
É um chiste. Nada contra os garçons. Inclusive, já trabalhei nessa função. Para início de conversa, em Portugal, não se chama o garçom de garçom, mas, atendente de mesa ou empregado de mesa. Sim, eu também achei o tratamento esquisito, mas, é assim que a coisa funciona. Não adianta usar as alcunhas cantadas pelo Samuel Rosa em “Saideira”: “Comandante, capitão, tio, brother, camarada, chefia, amigão, desce mais uma rodada”. Vocês, simplesmente, não serão atendidos.
Sou besta demais. Tenho fobia de viajar para fora do Brasil. Medo de sofrer um peripaco no estrangeiro. Um pezinho na hipocondria. Portanto, covarde incorrigível que sou, optei por viajar em grupo, pelo famigerado — e muito prático — sistema de excursão. Fui conduzido pela antiquíssima agência Abreu. Trinta e cinco pessoas no grupo. Brasileiros, uruguaios, argentinos e uma peruana. A nossa guia foi uma altiva mulher portuguesa, formada em história e que falava seis idiomas. Nada mau. Já tinha sido alertado sobre a intolerância dos europeus, especialmente, dos franceses e dos portugueses, em relação aos brasileiros. Em certa medida, a despeito das óbvias nuanças de arrogância e de prepotência, eu compreendia o pré-conceito. Na média, os brasileiros são barulhentos, folgados, velhacos e deseducados.
Entretanto, de nossa parte, fomos muito bem tratados pelo povo português, ao lidar com pessoas quase sempre gentis, atenciosas e bem-humoradas. Aliás, sucedeu um episódio peculiar, hilariante, que não posso me furtar em lhes contar. Durante uma caminhada matinal por Lisboa, um desavisado membro do grupo, sem sequer se valer das palavras mágicas que abrem porta, do tipo “Bom dia”, “Com licença” e “Por favor”, perguntou de supetão para um velhote que claudicava acelerado pela calçada, onde ficava o centro da cidade. “Como o próprio nome diz, o centro da cidade fica no centro”, ele disse, ao dar as costas e partir, sem prestar maiores esclarecimentos. Todos rimos da patacoada.
Nunca soquei um homem. Quem diria que tivesse o ímpeto de fazê-lo, no auge dos meus 60 anos. O imbróglio sucedeu na charmosa cidade do Porto. O clima estava instável; o céu, carregado de nuvens. Eu e a minha gata procurávamos um restaurante onde almoçar. Com a ajuda de um “satânico” aplicativo do smartphone, paramos numa cantina que possuía boa avaliação dos clientes. Assim que chegamos, a chuva despencou. Ficamos abraçados sob a tenda que cobria as mesas da parte exterior do restaurante. Preocupado com o aguaceiro, um atendente acenou a gritar que entrássemos ou acabaríamos ensopados. Era um brasileiro que tentava melhor sorte em terras lusitanas. Ele disse que o estabelecimento era pequeno, que estava lotado, contudo, colocaria os nomes na fila de espera. A próxima mesa já seria a nossa. Orientou que permanecêssemos ali mesmo, num canto que dava acesso ao corredor de entrada do estabelecimento.
Não demorou muito, outro atendente de mesa nos abordou, desta feita, de forma rude. Era um jovem português de cara enfezada.
— Vocês não podem ficar aqui.
— Desculpe. Foi o seu colega quem pediu para aguardarmos nesse lugar.
— Não importa. Estão a atrapalhar o meu serviço. Vocês vão ter que sair.
— Você quer que nos molhemos na chuva?
— E o senhor quer que eu me molhe na chuva?
— Por óbvio que não.
— Eu sou profissional. O senhor tem que me respeitar. Estou a trabalhar.
— Você é que me deve respeito, gajo. Somos clientes da casa. Pusemos os nomes na lista de espera.
— Não. Os senhores não são clientes da casa. Vão se tornar clientes da casa, a partir do momento que estiverem a sentar numa mesa. Enquanto isso, continuam a me atrapalhar.
— Então, me tire daqui.
— Como é?
— Eu não vou sair. Me tire daqui. Quero ver você me tirar daqui.
Fiquei valente, de repente. Já me enxergava atracado ao pescoço daquele sujeito, a rolar pelo pedregoso e centenário piso da cantina. Por sorte, o sujeito sumiu pelo salão, a espumar a boca. O outro garçom, ou melhor, o outro empregado de mesa, o brasileiro gente-fina, elegante e sincero aproximou-se e pediu desculpas. Disse que o colega era meio esquentado, que relevássemos os maus modos, pois, em breve, estaríamos sentados, a degustar uma das melhores comidas do Porto. Naquele curto período de tempo em que estive prestes a agir como um selvagem, a brigar de forma primitiva e irracional com um homem desconhecido, muito mais jovem e muito mais forte do que eu, veio o estio. Agradeci ao conterrâneo pela cordialidade e informei que não ficaria para o almoço. Tinha perdido o apetite.
Sabe aquela fase da vida em que não se aceita mais levar desaforo para casa? Estava disposto a tomar uma pisa, ir preso ou coisa do gênero. O inusitado entrevero deixou-me contrariado por alguns minutos, porém, não atrapalhou em nada o passeio. Perder o apetite em Portugal é missão impossível. Tinha a consciência de que o ato xenofóbico do jovem atendente português de cara enfezada era um ponto fora da curva. Fomos parar no Majestic Café, onde tivemos um almoço majestoso. E caro também. Ossos do ofício para viajantes brasileiros, ao nos aventurar por um país com moeda forte.
Um dia, eu escrevo sobre a viagem, detalhadamente. Foram legítimas aulas práticas de história. Visitamos Lisboa (onde fui apresentado ao glorioso rio Tejo, onde comi bacalhau à exaustão e onde me deixei fotografar na frente da Livraria Bertrand, a mais antiga da Europa), Cascais (onde comi o polvo mais saboroso de todos os tempos e deixei de conhecer, sei lá por que cargas d’água, a famosa Boca do Inferno), Sintra (onde não visitei o Palácio Nacional da Pena porque estava em reforma parcial e, portanto, não valia a pena pagar pelo ingresso), Nazaré (a famosa praia das ondas gigantes, de cujo mirante vislumbrei a paisagem litorânea mais exuberante da minha vida, desde a visão da Baía da Guanabara, no Rio de Janeiro), Fátima (onde sucederam as supostas aparições de Nossa Senhora de Fátima para o trio de infantes campesinos), Coimbra (a cidade da cultura, do conhecimento e das universidades), Porto (onde atravessei a Ponte Dom Luís I, sobre o Rio Douro, para quase apanhar de um português enfezado numa birosca do Cais da Ribeira), Gondomar (onde caí no embuste de conhecer a tal Rota da Filigrana), Braga (onde subi pelo funicular hidráulico mais antigo do mundo, para visitar o Santuário do Bom Jesus do Monte), Ponte de Lima (onde degustei vinho verde e atravessei uma ponte medieval sobre o rio Lima), Viana do Castelo (onde visitei o belo Santuário de Santa Luzia), Guimarães (onde começou Portugal), Belmonte (onde nasceu o descobridor Pedro Álvares Cabral), Amarante (onde comi uma perdição de doces às margens do rio Tâmega), Peso da Régua (onde bebi vinho do Porto), Pinhão (onde me abstive de vinho, mas, me embriaguei com a visão do Vale do Rio Douro e os seus vinhedos), Viseu (onde me perdi pelas ruazinhas antigas do centro histórico) e Aveiro (onde eu quis morar por tempo indeterminado).
Paradoxalmente, existem, sim, pedintes e ambulantes. Mas, não nos deparamos com pessoas morando nas ruas. Nada de lixeiras à vista. Nenhum papel de balinha no chão. O banho de cultura, de civilidade e de história foi inevitável. Por mais que a história terminasse por nos conduzir ao constrangedor passado de descobrimentos, de violência, de dominação e de usurpação. Da mesma forma — por que não — conduziu-nos ao passado de intrepidez e de coragem de homens destemidos que viajaram por mares nunca dantes navegados, sem destino certo, sem a certeza do retorno para os seus lares.
Assim caminha a humanidade. Que esses caminhos nos levem para um futuro mais promissor. Um futuro de paz globalizada, de tolerância mútua e de igualdade entre os povos. Palavras ao vento? Mera utopia? Quem me conhece sabe que não sou exemplo de otimismo. A vida pode parecer doce como os pasteizinhos de Belém, mas, não é mole. Portanto, não nos custa devanear. Nessa ilimitada esfera lúdica, os descalabros cambiais entre nações ricas e nações em desenvolvimento, como é o caso do Brasil, em nada irão nos afetar. Afinal, superação e resiliência são a nossa praia.

