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Querido poeta Vinicius de Moraes, é melhor ser alegre que ser triste, mas, não é nada fácil. Aliás, como cantava o seu parceiro Tom Jobim, é impossível ser feliz sozinho. Daí o motivo de tanto descontentamento àqueles que observam o mundo com as lentes da solidariedade. Nunca estivemos tão sós. Apesar de toda a conectividade global, nunca nos sentimos tão solitários e jamais consumimos tantas drogas legais para embotar a mente e confundir os neurônios. Investir dinheiro em ações da indústria farmacêutica na bolsa de valores parece um baita negócio. Não dou valor às bolsas de valores. As ações do meu interesse são menos arriscadas e mais tangíveis, do tipo dar as caras onde eu ando sumido, escutar com real interesse as lamúrias do meu interlocutor, acudir um amigo em apuros e outras coisas corriqueiras do gênero. Somos parecidos. Sabemos quase nada a respeito da vida. Se precisar de um parceiro para enxugar o gelo dos dilemas existenciais, conte comigo. Embora, eu não seja um dos homens mais populares e otimistas da rua. Já disseram que o cara da casa 6 tem cara de enfezado. É lá onde moro. Entre as casas 5 e 7. Hilário, não? Não me considero enfezado. No máximo, triste, feio, inseguro, calvo e compenetrado. Sei lá. Não é dos carecas que elas gostam mais. Todo mundo aprecia mesmo é a companhia dos indivíduos alegres, extrovertidos, com astral acima da média. Na média, acho que sou mais alegre do que triste. A felicidade vence por um beiço de pulga, se é que me entendem. No entanto, prefiro não me aprofundar nessas particularidades de cunho pessoal. Quero escrever sobre uma gangorra de sentimentos de uma forma mais plural e coletiva. Sabe aqueles dias em que nos sentimos mais por baixo que diferencial de sapo? Acontece com todo mundo. Acontece muito. Quando eu me sinto blues, penso nos meus pais, não entro em igreja, tomo outro rumo, não tomo remédio controlado e não choro. Eu remedeio o descontrole. Eu escuto música, a minha válvula de escape. Daí a minha contribuição. Refletindo sobre os perrengues emocionais coletivos, a partir da minha predileção musical, compilei 20 canções brasileiras que funcionam como antídoto contra a tristeza e o baixo astral. Se funcionam comigo, haverão de funcionar com a maior parte das pessoas. O áudio completo das canções segue logo abaixo, juntamente com alguns versos pinçados a partir das letras, os quais considero os mais relevantes. Assim como escreveu José Saramago: “Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia”. Sequemos mutuamente o sangue, o gelo e as lágrimas, com o auxílio luxuoso de pérolas da música popular brasileira. Agarremo-nos numa obviedade tantas vezes repetida: todos morreremos um dia. Portanto, não dá pra levar essa vida louca tão a sério. Cuidem-se. E, se não for pedir muito, divirtam-se pra valer, até o coração fazer bico. 

1 — Tente outra vez (Raul Seixas / Paulo Coelho / Marcelo Motta) — versão de Raul Seixas

Veja, não diga que a canção está perdida, tenha fé em Deus, tenha fé na vida, tente outra vez. Queira. Basta ser sincero e desejar profundo. Você será capaz de sacudir o mundo. Vai. Tente outra vez. E não diga que a vitória está perdida, se é de batalhas que se vive a vida. Tente outra vez

2 — Desesperar jamais (Ivan Lins / Vitor Martins) — versão do Ivan Lins

No balanço de perdas e danos, já tivemos muitos desenganos, já tivemos muito que chorar, mas, agora, acho que chegou a hora de fazer valer o dito popular: desesperar, jamais

3 —Volta por cima (Paulo Vanzolini) — versão da Beth Carvalho

Ali onde eu chorei, qualquer um chorava. Dar a volta por cima, quero ver quem dava. Reconhece a queda e não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima

4 — Mais uma vez (Renato Russo / Flávio Venturini) — versão do Renato Russo

Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena acreditar no sonho que se tem ou que seus planos nunca vão dar certo ou que você nunca vai ser alguém. Quem acredita sempre alcança

5 — Amanhã (Guilherme Arantes) — versão do Guilherme Arantes

Amanhã será um lindo dia, da mais louca alegria que se possa imaginar. Amanhã, a luminosidade, alheia a qualquer vontade, há de imperar. Amanhã, mesmo que uns não queiram, será de outros que esperam ver o dia raiar. Amanhã, ódios aplacados, temores abrandados, será pleno, será pleno

6 — Anjos, pra quem tem fé (Marcelo Falcão / Tom Saboia) — versão do Rappa

Te mostro um trecho, uma passagem de um livro antigo, pra te provar e mostrar que a vida é linda, dura, sofrida, carente em qualquer continente, mas, boa de se viver em qualquer lugar. Pra quem tem fé, a vida nunca tem fim

7 — Sorri (versão em português, de Djavan, para a composição original de Charlie Chaplin, Geoffrey Parsons e John Turner) — versão do Djavan

Sorri quando a dor te torturar e a saudade atormentar os teus dias tristonhos, vazios. Sorri quando o sol perder a luz e sentires uma cruz nos teus ombros cansados, doridos

8 — Todas as janelas (Rogério Flausino) — versão do Jota Quest

Pra quem vem de longe, pra quem faz rir, pra quem está no centro das decisões, pra quem espera e sempre alcança, pra quem é sem terra, pra quem está sem tempo, pra quem está muito louco, numa boa, pra toda essa gente no sufoco, a mais completa certeza de que tudo vai dar certo

9 — O que é, o que é (Gonzaguinha) — versão do Gonzaguinha

Viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz. Ah, meu Deus, eu sei, eu sei que a vida devia ser bem melhor e será, mas, isso não impede que eu repita: é bonita, é bonita e é bonita

10 — Canta, canta, minha gente (Martinho da Vila) — versão do Martinho da Vila

Canta, canta, minha gente, deixa a tristeza pra lá. Canta forte, canta alto, que a vida vai melhorar

11 — Enquanto houver sol (Sérgio Britto) — versão dos Titãs

Quando não houver esperança, quando não restar nem ilusão, ainda há de haver esperança, em cada um de nós, algo de uma criança

12 — Amor pra recomeçar (Frejat / Mauro Santa Cecilia / Mauricio Carvalho) — versão do Frejat

Quando você ficar triste, que seja por um dia e não o ano inteiro. E que você descubra que rir é bom, mas, que rir de tudo é desespero. Desejo que você tenha a quem amar e quando estiver bem cansado, ainda exista amor pra recomeçar

13 — O sol (Antônio Júlio Nastácia) — versão do Jota Quest

Ei, dor, eu não te escuto mais, você não me leva a nada. Ei, medo, eu não te escuto mais, você não me leva a nada. E se quiser saber pra onde eu vou, pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou

14 — Tudo novo de novo (Paulinho Moska) — versão do Paulinho Moska

Vamos acordar. Hoje tem um sol diferente no céu, gargalhando no seu carrossel, gritando nada é tão triste assim. É tudo novo, de novo. Vamos nos jogar onde já caímos

15 — Deixa a vida me levar (Serginho Meriti / Eri do Cais) — versão do Zeca Pagodinho

Só posso levantar as mãos pro céu, agradecer e ser fiel ao destino que Deus me deu. Se não tenho tudo que preciso, com o que tenho, vivo, de mansinho lá vou eu. Deixa a vida me levar, vida, leva eu

16 — O sal da terra (Ronaldo Bastos / Beto Guedes) — versão do Beto Guedes

Vamos precisar de todo mundo. Um mais um é sempre mais que dois. Pra melhor juntar as nossas forças, é só repartir melhor o pão, recriar o paraíso agora, para merecer quem vem depois. Deixa nascer o amor. Deixa fluir o amor. Deixa crescer o amor. Deixa viver o amor, o sal da terra

17 — Tá escrito (Xande de Pilares / Carlinhos Madureira / Gilson Bernini) — versão Grupo Revelação

Erga essa cabeça, mete o pé e vai na fé. Manda essa tristeza embora. Basta acreditar que um novo dia vai raiar, sua hora vai chegar. Quem cultiva a semente do amor segue em frente e não se apavora. Se, na vida, encontrar dissabor, vai saber esperar a sua hora

18 — Não deixe de sonhar (Rodrigo Panassolo) — versão do Chimarruts

Preste atenção, não abra mão dos próprios sonhos. Não tem perdão, não. Não deixe de sonhar. Não deixe de sorrir, pois, não vai encontrar quem vá sorrir por ti

19 — Tocando em frente (Almir Sater / Renato Teixeira) — versão do Almir Sater

Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais. Cada um de nós compõe a sua história e cada ser em si carrega o dom de ser capaz de ser feliz

20 — Envergo, mas, não quebro (Lenine / Carlos Renno) — versão do Lenine

Eu sofro igual todo mundo. Eu apenas não me afundo em sofrimento infindo. Não é só felicidade que tem fim na realidade, a tristeza também tem. Em tempos de tempestades, diversas adversidades, eu me equilibro e requebro. É que eu sou tal e qual a vara bamba de bambu-taquara, eu envergo, mas, não quebro

Eberth Vêncio

Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 60 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.

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