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Daniel Radcliffe interpreta Allen Ginsberg em filme baseado em crime real no Prime Video Divulgação / Sony Pictures Classics

Daniel Radcliffe interpreta Allen Ginsberg em filme baseado em crime real no Prime Video

Dirigido por John Krokidas e estrelado por Daniel Radcliffe, Dane DeHaan, Michael C. Hall e Ben Foster, “Versos de um Crime” volta a 1944 para acompanhar Allen Ginsberg ainda calouro em Columbia, antes de o poeta se transformar em nome de antologia. Tudo começa num corredor da universidade. Ali ele encontra Lucien Carr, colega magnético que o aproxima de Jack Kerouac, William S. Burroughs e de David Kammerer, homem mais velho cuja presença pesa sobre a turma. Em Nova York, Allen sai de uma casa marcada por um pai poeta exigente e por uma mãe em sofrimento psíquico para cair num meio em que estudo, desejo e perigo passam a andar juntos.

Allen chega à universidade com a postura de quem ainda pede licença para entrar, e Lucien logo trata de ridicularizar professores, rimas e protocolos. A noite chama mais alto. Carr o empurra para Whitman, Yeats e Rimbaud, fala em uma nova visão e transforma conversa sobre poesia em convite para beber demais, atravessar a madrugada, ouvir jazz e sair da linha. Ao mesmo tempo em que se encanta, Ginsberg percebe que a força de Lucien aparece menos no que escreve do que no efeito que produz sobre quem o cerca, sobretudo sobre quem o deseja ou tenta salvá-lo.

Os bares de jazz, as festas esfumaçadas e os apartamentos boêmios concentram a parte mais viva de “Versos de um Crime”. Burroughs surge numa banheira usando gás. Kerouac entra como cúmplice de energia mais física, e o grupo passa a tratar a madrugada como uma sala de aula paralela, feita de música, excesso e bravata, em quartos apertados, mesas pegajosas e calçadas molhadas. A ação noturna em Columbia, com livros, correria e insolência, resume esse impulso de desafiar o cânone antes mesmo de haver obra para sustentá-lo.

Lucien domina cada sequência porque sabe transformar carência alheia em moeda. Nada ali é inocente. Kammerer escreve trabalhos para ele, Allen também é puxado para esse arranjo, e a dependência do rapaz em relação a esse pequeno séquito acadêmico e afetivo revela um traço bem menos sedutor do que a primeira impressão promete. A atração que Allen sente cresce ao lado de humilhação, dívida e meia promessa, enquanto Kammerer ronda o campus, os bares e as margens da cidade como quem cobra uma conta antiga a cada aparição.

Por isso o assassinato de David Kammerer pesa menos como mistério policial do que como ruptura moral num grupo que até então parecia viver de frases brilhantes, fumaça e música. O golpe vem seco. Tudo o que vinha se acumulando em quartos alugados, festas, bibliotecas e caminhadas noturnas encontra ali um ponto sem volta, porque a relação obsessiva entre Carr e Kammerer já envenenava a aproximação de Allen com aquele mundo. O interesse do longa está em observar como o crime altera o peso de cada gesto anterior, da sedução em Columbia aos excessos espalhados por Nova York.

“Versos de um Crime” fica mais forte quando prefere o que ainda está em formação ao retrato solene de nomes que a posteridade transformou em mito. A pose às vezes pesa. A biblioteca invadida à noite, o salto sobre as mesas, a banheira de Burroughs, os bares de jazz e a atração de Allen por Lucien falam mais sobre esse grupo do que qualquer frase grandiosa sobre o nascimento da geração beat. Mas o filme reencontra o rumo sempre que volta ao barulho, à vaidade e à carência daqueles rapazes em 1944. No fim, fica a fumaça presa sobre a mesa do bar, grudando na madeira.

Filme: Versos de um Crime
Diretor: John Krokidas
Ano: 2013
Gênero: Drama/Romance/Thriller
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★