Dirigido por Orso Miret e estrelado por Pascal Demolon, Sara Martins, Annelise Hesme e Yannick Choirat, “Um Álibi” começa onde tantos policiais gostam de terminar, diante de um corpo no chão e de um homem em posição difícil de explicar. A diferença é que, aqui, o interesse não está primeiro no cadáver, mas no reflexo quase automático de quem chega à casa e decide proteger o amigo antes mesmo de entender direito o que houve. É uma entrada seca. Maude, Pierre e Tom aparecem para o aniversário de Lucie e encontram Max ajoelhado ao lado da mulher assassinada, no espaço doméstico que deveria receber uma comemoração e passa, em segundos, a concentrar medo, dúvida e cálculo.
O álibi nasce na sala
Esse arranque tem a inteligência de não separar crime e convivência, como se uma coisa viesse primeiro e a outra depois. A polícia logo tem um suspeito viável, Max, mas o trio não reage como observador, reage como gente implicada demais na cena, na amizade e no passado comum para admitir o que vê sem tentar torcer o quadro. Eles inventam um álibi. A partir daí, “Um Álibi” deixa claro qual é seu melhor terreno, não o espetáculo da investigação, mas o instante em que lealdade antiga começa a pedir pequenas torções de caráter e, depois, torções maiores.
Há telefilmes policiais que parecem montados para conduzir o espectador de pista em pista, como quem resolve um passatempo de fim de noite. Orso Miret segue por um caminho menos ornamental e mais áspero. Em vez de espalhar sinais engenhosos, ele concentra a atenção num gesto bastante reconhecível, o de proteger alguém próximo quando tudo parece apontar para ele, mesmo que essa proteção já nasça contaminada pelo absurdo da situação. Isso dá peso ao caso. Lucie não é uma vítima abstrata saída de um prólogo, mas a mulher de Max e a amiga em torno de cujo aniversário todos deveriam estar reunidos, o que torna o movimento dos outros três ao mesmo tempo compreensível e indigesto.
A dúvida corre entre amigos
É aí que o filme encontra alguma coisa mais incômoda do que o simples “quem matou”. Se Maude, Pierre e Tom mentem para salvar Max, mentem também contra a evidência imediata da cena, contra o corpo de Lucie e, no limite, contra a possibilidade de estarem ajudando justamente o assassino da própria amiga. A pergunta é brutal. “Um Álibi” não precisa fazer muito barulho para pôr isso de pé, porque a situação já vem carregada de embaraço moral e de desconforto prático, com quatro pessoas presas à mesma versão e a mesma casa agora tomada por outra utilidade.
A entrada da tenente Garnier dá forma mais visível a esse aperto. Ela conduz a investigação e transforma a mentira coletiva num mecanismo instável, que depende de memória, sangue-frio e coincidência, três coisas que raramente duram juntas por muito tempo. Cada conversa pesa. O que parecia solidariedade entre amigos passa a conviver com autopreservação, receio de contradição e aquele desgaste miúdo que aparece quando alguém precisa repetir a mesma história várias vezes e percebe, no meio da frase, que talvez já não esteja falando em nome de ninguém além de si mesmo.
A polícia reduz o espaço
Como telefilme de 90 minutos, “Um Álibi” parece saber que não lhe convém dispersar demais. Há uma mulher morta, um marido em posição impossível, três amigos determinados a bancar uma versão e uma policial reduzindo o espaço disponível para essa invenção respirar. O desenho é simples, e isso ajuda. Sem prometer mais do que pode sustentar, o longa encontra um nervo razoável ao juntar cadáver, casamento, amizade e medo no mesmo ambiente, até restar quase só a imagem de uma sala interrompida, a festa que não aconteceu e o frio de um corpo estendido no piso.
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