Quem trabalha nos bastidores do cinema sabe que o perigo real raramente aparece na tela. Ele está nas quedas, nos saltos e nos erros que ninguém pode cometer. É exatamente nesse território que “O Dublê” encontra sua graça e seu charme. Dirigido por David Leitch, o filme acompanha Colt Seavers (Ryan Gosling), um dublê veterano de Hollywood que construiu a carreira fazendo aquilo que os protagonistas não querem arriscar. Saltos de prédios, perseguições de carro, explosões coreografadas. Tudo fazia parte da rotina até um acidente sério interromper sua trajetória e praticamente encerrar sua carreira. Um tempo depois, quando Colt ainda tenta entender qual será seu próximo passo, surge uma oportunidade inesperada: voltar ao trabalho em um grande filme de ação. O detalhe é que o projeto é dirigido por Jody Moreno (Emily Blunt), sua ex-namorada.
O reencontro entre os dois já carrega um peso natural. Não é apenas uma relação profissional que precisa ser retomada, mas também um passado mal resolvido que insiste em aparecer em cada conversa. Jody está tentando provar que consegue comandar uma grande produção de Hollywood, enquanto Colt precisa mostrar que ainda é capaz de executar as acrobacias mais perigosas do set. Essa dinâmica cria um jogo interessante entre confiança, orgulho e pequenas provocações que dão ao filme um ritmo bastante leve.
Só que a situação complica quando Tom Ryder (Aaron Taylor-Johnson), o astro do longa que Colt deveria substituir nas cenas de ação, desaparece misteriosamente. De repente, o dublê que já tinha trabalho suficiente lidando com explosões e saltos impossíveis também passa a tentar entender o que aconteceu com o ator. E quanto mais ele investiga, mais percebe que talvez tenha se metido em algo muito maior do que um simples problema de produção.
Ryan Gosling conduz o filme com um carisma quase relaxado. Colt é aquele tipo de personagem que parece sempre um pouco deslocado, alguém acostumado a ser invisível mesmo estando no centro das sequências mais perigosas. Existe algo divertido em vê-lo tentando resolver problemas enquanto também precisa se jogar de carros em movimento ou repetir manobras absurdas para que a equipe consiga gravar a cena perfeita. O humor nasce justamente desse contraste entre o absurdo das situações e a naturalidade com que ele lida com tudo.
Emily Blunt funciona como o contraponto ideal. Jody Moreno não é apenas a ex que ainda tem contas emocionais pendentes. Ela é também a diretora responsável por manter um filme milionário funcionando, o que significa lidar com pressões de estúdio, prazos apertados e egos gigantescos. A relação entre ela e Colt mistura cumplicidade, irritação e uma química evidente que o filme explora com bastante leveza.
Aaron Taylor-Johnson, por sua vez, aparece como o típico astro de ação que vive cercado por expectativa e glamour. Mesmo quando não está presente em cena, a figura de Tom Ryder continua orbitando a história, já que o desaparecimento do ator se torna o grande mistério que move a trama.
O interessante é que “O Dublê” não tenta esconder sua paixão pelos bastidores do cinema. David Leitch, que começou a carreira justamente como dublê e coordenador de ação, parece se divertir mostrando o trabalho por trás das grandes sequências. Rampas escondidas, cabos invisíveis, carros preparados para capotar. O filme olha para esse universo com carinho e um certo orgulho profissional.
Mas o que realmente mantém tudo funcionando é o tom leve da narrativa. Mesmo quando a história entra em terreno de mistério e perigo, o filme nunca perde o humor ou o ritmo de comédia romântica que surge naturalmente da relação entre Colt e Jody. Existe sempre uma piada surgindo no meio de uma perseguição ou uma troca de olhares que interrompe uma conversa tensa.
“O Dublê” funciona como uma mistura divertida de romance, ação e aventura de bastidores. É um filme que entende o absurdo do próprio universo e usa isso a seu favor. E enquanto Colt Seavers tenta recuperar sua carreira, descobrir o que aconteceu com Tom Ryder e, quem sabe, reconquistar Jody Moreno, a sensação é de que o verdadeiro espetáculo acontece justamente fora do enquadramento das câmeras.
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