Arte e transgressão sempre beberam da mesma fonte. Aquilo que escandaliza costuma ser um farol que leva à inovação e à liberdade, expandindo os horizontes do pensamento. Confrontando padrões, os verdadeiros artistas semeiam novas ideias e reinventam o mundo, experimentando também tristeza e revolta ao perceberem que não podem alcançar a todos. Paolo Sorrentino faz um balanço tão original quanto poético do panorama artístico contemporâneo em “A Juventude”, permitindo que o espectador tire suas próprias conclusões. Ao longo de 124 minutos, o diretor exercita sua famosa vocação para a crônica numa meditação sobre o tempo, a memória e a finitude encarnada por um maestro e um cineasta idosos, convictos de seu talento. E cansados.
Ainda há lugar para a arte?
Fred Ballinger mantém encontros cada vez mais fortuitos com Beethoven, Mozart e Liszt, incapaz de vencer a solidão romântica que o paralisa. Ele autoexilou-se num resort de luxo nos Alpes suíços, de onde não pretende sair tão cedo, nem que seja para tocar para a rainha da Inglaterra — e isso não é uma hipérbole. Mick Boyle é sua contraparte, alguém que crê ainda poder colaborar com a humanidade por meio de seu trabalho e fazer, afinal, o filme perfeito. Ao olimpo dos dois, vão se juntando figuras periféricas bem mais jovens (e igualmente angustiadas), como Jimmy Tree, um ator vitimado por seu sucesso e que não consegue livrar-se de um certo Senhor Q, e Lena, filha de Fred e esposa do filho de Mick, trocada por uma divinha pop. Sorrentino tira de letra esse suposto caos, fazendo dele o grande atributo da história, levando o público a se envolver com aquelas pessoas excêntricas e suas almas confusas. Da mesma forma, o pulo do gato aqui é o jeito como o diretor-roteirista amalgama os dois núcleos, oferecendo a cada personagem um momento específico para entrar em cena.
A mão de Deus
Fred Ballinger talvez seja o papel mais despretensioso e um dos mais estimulantes de sir Michael Caine, que galvaniza todas as peças da azeitada engrenagem de “A Juventude”, a começar pelo Mick Boyle de Harvey Keitel. Os veteranos brilham cada qual a seu tempo, juntos e em lances distintos, obedecendo a cadência de metalinguagem ao atuarem como consciências críticas do show business. Rachel Weisz e Paul Dano compõem uma dupla tão inusitada quanto eficiente e o Diego Maradona de Rolly Serrano, obeso e reumático, é um respiro cômico meio trágico. Sorrentino na veia, portanto.
★★★★★★★★★★




