Considerada o ópio do povo por gente com outros vícios, a religião tem salvado uma falange de almas da danação eterna desde que o mundo é mundo. Incompreendida, essa força invisível gera distorções naturais, que demandam atenção redobrada e combate imediato, a fim de se evitem os tantos equívocos que se valem da dúvida ou da incerteza para prosperar, personificados pelos falsos profetas que campeiam em toda parte e levam corações incautos para bem longe da beatitude, da beleza e da graça. Entretanto, se a fé deixa de ser reflexão e vira medo, institui-se um espaço de julgamentos e acossas, um dos portos onde fundeia “A Maldição de Audrey”. Valendo-se de truques simples, o diretor-roteirista Thomas Robert Lee compõe uma história sobre a nossa inépcia quanto a lidar com o passado, paraíso decadente onde vivem os fantasmas.
O maligno e o misterioso
“A Maldição de Audrey” começa em 1973, mas retrocede ainda mais, a fim de melhor situar o público. Um século antes, em 1873, uma colônia religiosa da Irlanda migrara para um lugar remoto no noroeste canadense na tentativa de manter a salvo seus costumes. Oito décadas mais tarde, em 1956, um eclipse se impõe no céu e, coincidência ou não, as lavouras secam e as pessoas caem doentes e morrem. Agatha Earnshaw é a única que não acusa o golpe, e logo é acusada de heresia, provocando um mal-estar inédito. Há dezessete anos, Agatha dera à luz Audrey, uma criança que ninguém jamais conheceu, e enquanto ela era pequena pôde-se guardar o segredo. Agora que é uma bela moça, virou problema.
Rituais muito estranhos
Sugerindo o discurso religioso como fonte de manipulação política, que por sua vez leva à dependência e à miséria, não se discerne de imediato quem desempenha que papel na narrativa. Devotos como o pregador Seamus Dwyer, de Sean McGinley, passam por cima da misericórdia e da caridade em nome da doutrina, e condutas dessa natureza turbinam a revolta de Audrey, cada vez mais empolgada com os rituais ocultistas que prometem uma vingança lenta e saborosa. O filme ganha um pouco mais de ritmo quando o eixo desloca-se de Agatha, interpretada por Catherine Walker com a dose certa de fúria silenciosa e receio, para Audrey, uma antimocinha que não perdoa nada e nem ninguém. Jessica Reynolds vê as contradições da personagem, fazendo uso de sua beleza angelical para destacar uma garota perdida em meio ao obscurantismo de falsos profetas e crenças assassinas.
★★★★★★★★★★




