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Toquem “Caneta Azul” na droga do meu funeral

Toquem “Caneta Azul” na droga do meu funeral

Outro dia, num programa televisivo de retumbante audiência, assisti às explicações minuciosas de “especialistas” sobre como construir um hit musical. Aquele tipo de canção que gruda no ouvido das pessoas. Chiclete. Isso mesmo. Foi esse o termo utilizado para descrever uma composição com potencial para cair rapidamente no gosto popular, colando no imaginário do povão que nem goma de mascar na parte de baixo da cadeira escolar. Alguém se lembra de já ter feito isso? Vândalos!

Especialistas na produção de sucessos com fins estritamente comerciais ensinavam a importância de conceber um refrão pegajoso, de fácil apreensão e, quiçá, dotado de nuanças de sensualidade, que ninguém é de ferro. Nada de passar mensagens altruístas, questionamentos existencialistas, posicionamentos políticos e outras bobagens do gênero. Muito menos, criar harmonias musicais complexas de difícil compreensão para a média do público consumidor. Enfim, a receita para se emplacar um sucesso parecia infalível, batata, três palitos, nhambu na capanga. Bastava criatividade, bom humor e um bocado de mau gosto para a concepção de canções divertidas, descartáveis, com aquele quê de sacanagem, pois, se tem uma coisa de que brasileiro gosta é de uma sacanagem.

A reportagem deixou-me ressabiado, ligeiramente preocupado com os destinos das novas gerações. Ao desfrutar de um repertório de qualidade tão ruim, que legado restará para essa turma? Não que a vida dos outros seja da minha conta, longe disso, não sou tão fofo e tão besta assim. Simplesmente, não concebo a vida sem a música, sem a música de boa lavra, composta de letras que emocionem, que levem à reflexão, dotadas de melodias bem engendradas que superem o paradigma dos famigerados três acordes musicais.

Costumo me gabar pela educação musical privilegiada, desde os primórdios, por influência de meus pais. Surfei na MPB, na música sertaneja de raiz, no rock e no pop internacional dos anos 1960 até o final do século 20. Claro que também se fazia porcaria naquela época. O mundo sempre foi dos espertos. Porém, com o advento da internet e das redes sociais, parece que a situação degringolou, pois, o consumo de música tranqueira e indigna ficou extremamente facilitado, propiciando, inclusive, a ascensão meteórica de ilustres desconhecidos que emplacaram canções medíocres a ponto de enriquecerem. Legal, né? Eu queria…

O mundo anda esquisito. Eu também, admito. Fazer o quê? Sou fruto do meio. E o meio anda meio tenso, desagradável, tudo rápido demais, raso demais e descartável ao extremo. Como já disse, reiteradas vezes, o perspicaz jornalista goiano Pablo Kossa, a gente gosta mesmo é de ficar na parte rasa da piscina, sem nos aprofundarmos nos assuntos. Num falso exercício de presunção, coloco-me no lugar daqueles que consomem música comercial descartável. Provavelmente, fazem isso sem perceber. Muitos vão argumentar que se trata apenas de diversão, de catarse coletiva e nada mais. Pode ser. Deve ser. O risco que se corre é do indivíduo se acostumar com o lixo cultural e não sair da rasura.

Sei que posso soar elitista, arcaico, recalcado ou presunçoso. Cara, eu sou insuportável, um verdadeiro pé-no-saco, vocês têm razão. Sempre se corre algum risco ao emitir opiniões. Mesmo assim, eu não paro. A música diverte, mas, fundamentalmente, transcende, acalenta, emociona e transforma as pessoas. A despeito da insalubre velocidade de comunicação da vida contemporânea, penso que não devemos prescindir do novo. Acima de tudo, não devemos prescindir da criação musical comprometida com a qualidade e, por que não, com a função social de transformar as pessoas, desanuviando, divertindo, fazendo dançar, dando um tempo no interminável estado de loucura que é viver nesse planeta.

Eberth Vêncio

Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 60 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.