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O filme indiano mais assistido de 2026 também está entre os mais assistidos do mundo na Netflix Divulgação / Dharmatic Entertainment

O filme indiano mais assistido de 2026 também está entre os mais assistidos do mundo na Netflix

Em “A Acusada”, sob direção de Anubhuti Kashyap e com Konkona Sen Sharma e Pratibha Ranta, a história segue uma ginecologista que, após ser alvo de uma denúncia de má conduta sexual, atravessa uma apuração hospitalar enquanto o casamento se desgasta sob suspeita. Ela recusa o papel de acusada silenciosa, movida por preservação profissional, mas encontra uma barreira que não espera veredicto; a desconfiança se instala cedo e redesenha o dia a dia por restrições no trabalho e vigilância social.

Tudo começa por via administrativa: um e-mail anônimo chega ao RH, e o hospital opta por formalizar o caso com registros e investigação. A motivação institucional é conter risco e padronizar condutas, só que o anúncio do procedimento já muda a temperatura do lugar; autoridade técnica perde proteção diante de olhares atravessados. A médica tenta sustentar a rotina como se desempenho bastasse, mas as redes sociais ampliam o episódio e empurram o processo para um palco de versões.

Dentro de casa, a parceira faz um movimento simples e corrosivo, confrontar e perguntar. A motivação é proteger a vida que construíram e proteger a si mesma, porém o impasse é que toda pergunta pesa como prova ainda inexistente, e a intimidade vira inquérito doméstico. A acusada evita se explicar no formato esperado, como quem rejeita a moldura de culpa, e o silêncio passa a trabalhar contra ela, abrindo fissuras que não se fecham com rotina.

Quem iniciou a ofensiva
O suspense é organizado como disputa por autoria e intenção, e a protagonista resolve buscar quem iniciou a ofensiva e por quê. Quer retomar controle do próprio relato e impedir que a carreira vire passivo, mas o entrave é um entorno desenhado por potenciais adversários profissionais e afetivos, deixando cada contato com cara de indício. Ao listar suspeitos, o enredo ganha velocidade e amplia o campo de atrito, mas o saldo é um custo: a energia gasta para mapear culpados concorre com o dano íntimo que avança sem pausa.

A apuração muda de mãos quando o hospital escolhe trazer um olhar externo, e Bhargav entra para avaliar versões. A médica reage de modo combativo, por indignação e por recusa em ser reduzida a dossiê, só que a própria combatividade vira material interpretável para quem já desconfia, estreitando o círculo de apoio dentro da instituição. Paralelamente, o processo procura históricos e reabre decisões antigas, e o presente passa a ser lido por um arquivo, como se o trabalho se convertesse em prova contínua.

Dúvida no centro do casamento
É no casamento que a tensão ganha corte mais agudo, quando a parceira passa a observar, medir e comparar o comportamento profissional da outra com a imagem que circula. Ela tenta separar dureza de abuso sem trair o vínculo, mas o bloqueio é que o poder no trabalho sempre admite leituras concorrentes, contaminando cada conversa. Quando o filme sustenta esse desconforto sem pressa, a dúvida deixa de ser truque de gênero e vira condição diária.

Ao tratar o casamento homoafetivo como dado de cena, a obra desloca o peso das escolhas para o custo imediato. Com os planos de adoção sob ameaça, a motivação do casal é preservar um futuro concreto, e a instabilidade reputacional e institucional empurra a vida familiar para suspensão. A parceira tenta manter o cotidiano e a própria carreira, a acusada tenta sustentar a autoridade clínica, e a casa passa a funcionar em regime de cautela.

Investigação privada e estado de alerta
A narrativa então decide fazer a apuração escapar do comitê, e o casal busca respostas fora dos protocolos, com a entrada de uma investigação privada. A intenção é romper a assimetria entre boato e prova, mas há uma armadilha: investigar também pode soar como confissão para quem já escolheu um lado, e a defesa vira sintoma num circuito que se realimenta. O e-mail anônimo permanece como peça recorrente dessa modernidade impessoal, ou melhor, como rastro mínimo capaz de produzir dano máximo, não exatamente assim porque a trama também sugere uma corrida por culpados, ele não diz, mas deixa no ar que a pressa por um “quem” pode evitar o abismo do “como” e do “por quê”, e o resultado é um tribunal permanente sem sala nem juiz.

“A Acusada” insiste que apuração formal e julgamento em rede não são forças separadas, e a protagonista segue trabalhando para não perder o chão. Ela tenta sobreviver sem ceder a uma narrativa pronta, mas o ambiente já a trata como risco, e casamento e carreira passam a operar sob alerta. Tudo retorna ao elemento que inicia e reaparece como gatilho do desgaste, o e-mail anônimo, que continua determinando ações e fechando portas, ainda ali, na caixa de entrada.

Filme: A Acusada
Diretor: Anubhuti Kashyap
Ano: 2026
Gênero: Drama/Thriller
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★