A experiência cria os hábitos e desejos que orientam nossas escolhas. Por mais doído, existe no passado uma estranha sensação de conforto, uma vantagem sobre o futuro e seus riscos. Culpas e arrependimentos viram prisões em que nos trancamos em busca de segurança, e lá convencemo-nos de que não somos dignos de uma vida nova. Romper de uma vez por todas com esse ciclo implica conhecer-se e abandonar a alma velha que nos condena, um gesto de legítima bravura. Isso é o que pretende o personagem-título de “Sonny, O Amante”, sem saber que, além de uma inimiga declarada, seu maior adversário é ele mesmo. Nicolas Cage leva seu primeiro e único trabalho na direção com claro esmero e perfeccionismo, expondo nos personagens criados por John Carlen (1945–2009) a essência humana que a fealdade de sua rotina esconde. Em 110 minutos, Cage, um bicho do cinema, faz referências sutis a alguns de seus mestres, ao passo que nunca deixa de colocar a mão na massa, imprimindo suas próprias digitais num misto de sexo e fé no homem.
O bom filho
Todos nos deparamos com uma infinidade de vezes em que é fundamental que abandonemos o caminho pelo qual íamos gostosamente nos perdendo e refaçamos o percurso. A despeito do que possamos querer, o tempo, senhor da razão e de tudo quanto há de inexplicável no mundo, avança sem trégua, não para nunca, não admite ser desapontado e, caprichoso, tem suas próprias vontades e seus próprios planos para nós. Sonny Phillips volta à Nova Orleans de 1981 depois de servir no exército, meio desnorteado, mas repleto de sonhos. À frente de todos eles impõe-se o de sair da prostituição, um verdadeiro desafio por ser quem é. Jewel, sua mãe, é uma velha cafetina que sempre viu em Sonny a vívida chance de mobilidade social que o destino negou-lhe e, por óbvio, ela fica furiosa ao saber que o filho quer é trabalhar na livraria de um amigo no Texas. O diretor remexe John Woo, Spike Jonze, David Lynch (1946-2025) e, naturalmente, o Mike Figgis de “Despedida em Las Vegas” (1995), filme pelo qual ganhou o Oscar de Melhor Ator, a fim de acertar o tom de sátira, comentário e deboche temperado com cenas de nudez e sexo que hoje não escandalizam ninguém. James Franco encarna Sonny equilibrando-se da inocência para o pessimismo, e num e no outro extremo situam-se a personagem de Brenda Blethyn e Carol, a nova aposta de Jewel para a clientela, interpretada por Mena Suvari. O próprio Cage surge como Acid Yellow, um cafetão gay, mas nem precisava.
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