Em “Pavana”, dirigido por Lee Jong-pil, Ko Ah-sung vive Mi Jung, uma jovem que trabalha em uma loja de departamentos e carrega a sensação constante de ser deixada de lado, enquanto Moon Sang-min interpreta Gyeong Rok, o garoto popular que parece ter o mundo organizado ao seu redor; no meio deles, o personagem de Byun Yo-han observa, interfere e altera o equilíbrio dessa aproximação. Até onde alguém vai quando assumir um sentimento significa perder posição diante dos outros?
Mi Jung passa os dias atrás do balcão, organizando produtos, atendendo clientes e cumprindo horários com disciplina quase silenciosa. O trabalho garante independência mínima e alguma estabilidade, mas não resolve o que mais pesa: a exclusão. Ela não é a garota escolhida, nem a mais ouvida, nem a mais convidada. Ko Ah-sung constrói essa solidão sem exagero, com pequenos gestos e olhares que revelam alguém acostumada a recuar antes mesmo de tentar. Quando Gyeong Rok começa a se aproximar, não é só o coração dela que entra em jogo, é também a forma como ela é vista naquele microcosmo social.
Gyeong Rok, por sua vez, vive no lado oposto da vitrine. Moon Sang-min interpreta o personagem com a leveza de quem sabe que é querido, chamado, incluído. Ele transita com facilidade entre grupos, recebe convites, dita o tom das conversas. Só que essa popularidade não é gratuita; ela precisa ser mantida. Ao se aproximar de Mi Jung, ele coloca em risco essa rede que o sustenta. Cada gesto público ao lado dela vira comentário. Cada ausência no grupo vira pergunta. Ele não enfrenta um vilão declarado, enfrenta a pressão difusa de expectativas que cobram coerência com a imagem que construiu.
Byun Yo-han entra como o terceiro vértice desse triângulo delicado. Seu personagem percebe rapidamente a tensão crescente e decide agir. Às vezes com ironia, às vezes com provocações sutis, ele expõe o que ainda estava implícito. Não se trata de maldade caricata, mas de disputa por espaço. Ao tornar a aproximação mais visível, ele força decisões. E decisões, ali, nunca são neutras.
Lee Jong-pil conduz a história com foco nos gestos concretos: quem se senta ao lado de quem, quem atravessa um corredor, quem escolhe aparecer ou desaparecer em determinado momento. A câmera permanece próxima, quase íntima, o que amplia o peso dessas escolhas. O romance cresce, mas cresce sob vigilância. Não há grandes declarações explosivas; há conversas interrompidas, olhares desviados, silêncios que dizem mais do que discursos. Isso torna tudo mais real.
O que mais me chama atenção em “Pavana” é como o filme entende que o amor, na juventude, não acontece em isolamento. Ele depende de plateia, de contexto, de coragem pública. Mi Jung não quer apenas ser amada, quer ser reconhecida. Gyeong Rok não quer apenas amar, quer continuar pertencendo. E entre esses dois desejos existe um campo minado de expectativas sociais que ninguém verbaliza, mas todos obedecem.
O longa constrói tensão a partir de algo simples: a escolha de aparecer ao lado de alguém quando todos estão olhando. Ko Ah-sung entrega uma atuação sensível e contida; Moon Sang-min equilibra carisma e insegurança; Byun Yo-han adiciona complexidade ao jogo de forças. “Pavana” mostra que amar pode ser fácil; difícil mesmo é sustentar essa escolha quando ela altera o lugar que você ocupa no mundo.
★★★★★★★★★★



