No princípio era o blues rural dos afro-americanos, basicamente um ritmo vocal ritmado para acompanhar o pesado trabalho nas lavouras de algodão do sul dos EUA. Quando esse blues rural passou a ser acompanhado por uma instrumentação urbana, incluindo a guitarra elétrica, deram-lhe o nome de Rhythm and Blues. E foi o R&B que, em algum momento da década de 1950, rompeu os limites dos guetos negros das grandes cidades dos Estados Unidos e tomou de assalto os corações e mentes da juventude branca do país. E foi com o nome de Rock and Roll que esse ritmo, negro em sua essência, dominou o panorama musical dos anos 1950 e nas décadas posteriores.
Na década de 1960, o Rock and Roll, que já cruzara o Atlântico, ganhou nova força com os Beatles e outros grupos britânicos. Assim, o Rock, um termo mais abrangente, pois nem toda música do gênero era feita para dançar (roll), gerou vários frutos e subgêneros.
Um desses frutos, nascido na virada dos anos 1960 para os 1970, o Heavy Metal trilhou, de lá para cá, um caminho que cada vez mais o afastou do blues e, consequentemente, do rock tradicional. Alguns especialistas no assunto defendem que o metal, sem o adjetivo heavy, possui mais parentesco com as óperas do compositor alemão Richard Wagner do que com o blues.
Richard Wagner (1813–1883) foi pioneiro no uso do cromatismo em suas composições. Ele utilizou a escala cromática de 12 semitons com a intenção de gerar efeitos agressivos de tensão melódica e harmônica. Outra característica das óperas cromáticas de Wagner é a larga utilização de sonoridades instrumentais nas faixas de frequência sonora mais graves.
Não sou, nem de longe, especialista em teorias musicais, mas sei o efeito que a música de Wagner me causa desde que ouvi pela primeira vez a parte final de sua ópera “O Crepúsculo dos Deuses”, aos 13 anos de idade: tensão, assombro e profunda admiração.
Seria Wagner uma grande influência para o Heavy Metal? Cada vez mais penso que sim. E alguns músicos ligados ao metal também defendem essa ligação. Entre as bandas que se dizem explicitamente influenciadas pela música de Wagner estão: Manowar, HammerFall, Majesty e Sacred Steel.
Minha banda preferida de Heavy Metal é a, também alemã, Rammstein; vejo nela bastante similaridade com a estética e a temática wagnerianas: temas tabus pesados nas músicas, a combinação de drama e pirotecnia nas apresentações e representações públicas, música poderosa e carregada nos tons graves. Em uma publicação em inglês do canal alemão de notícias Deutsche Welle, foi traçado um paralelo entre Richard Wagner e Rammstein que conclui que não há meio-termo com os dois: ou se ama ou se odeia, e quem gosta de um tende a gostar do outro.
De maneira geral, podemos ouvir ecos de música clássica em boa parte das escalas usadas nos solos e riffs de guitarra do rock, e do Heavy Metal em particular. Algumas bandas de metal usam as mesmas técnicas utilizadas por Wagner no século 19: histórias baseadas na mitologia, cheias de tensão dramática e cuja finalidade é chocar e envolver o público, quase como numa experiência religiosa. A música de Wagner é repleta de climas e conflitos que são elementos caros ao Heavy Metal.
Não é por acaso que Wagner, em determinado ponto de sua carreira, passou a chamar suas óperas de dramas musicais. As pessoas, em maior ou menor grau, precisam de drama e questionamentos filosóficos em suas vidas. Questões estas, também presentes no Heavy Metal.
Wagner viveu num período importante da história e se envolveu em diversas questões políticas, sociais e filosóficas que fervilhavam na Europa no século 19. Lia muito Schopenhauer e trocava figurinhas com Nietzsche. Por falar em Nietzsche, as ideias niilistas do filósofo alemão influenciaram algumas letras do Heavy Metal, principalmente as do subgênero Black Metal, mas isto é tema para outra conversa.
Para terminar, exemplifico aqui o parentesco entre Wagner e o metal com uma curiosidade saborosa: o veterano ator britânico Christopher Lee (1922–2015), famoso principalmente por seus papéis de Drácula em filmes de terror, também gostava de cantar ópera e metal progressivo com traços wagnerianos.


