“O Favorito”, de Jason Reitman, abre com uma campanha que tenta decidir o que pode entrar na conversa pública. Gary Hart é tratado como favorito e insiste em falar de propostas, mas toma uma decisão de alto risco prático: ele evita responder quando o assunto encosta na vida conjugal. A recusa não encerra a curiosidade; ela a estica e obriga o comitê a operar em alerta, sempre à espera da próxima pergunta e da próxima manchete. A vantagem inicial do candidato passa a depender menos de agenda e mais de resistência diante do tipo de cobrança que não aceita silêncio como resposta.
Gary Hart aceita um passeio no iate Monkey Business e conhece Donna Rice, e o gesto oferece um ponto de referência para quem procura sinais fora do alcance do comitê. O encontro, que poderia ficar como detalhe de bastidor, vira rastro para uma cobertura que já ronda o candidato e quer amarrações concretas. Hugh Jackman dá a Hart um temperamento rígido que aparece na hora em que a exposição encosta: quanto mais ele tenta manter o debate no registro público, mais o noticiário encontra passagem pelo território privado. Até o fim desse movimento, a campanha parece carregar um risco embutido em qualquer deslocamento.
A dica anônima recebida por jornalistas coloca a máquina em marcha por ações simples e verificáveis: posicionar-se, esperar, observar, registrar. Repórteres fazem stakeout em uma townhouse, conseguem fotografias de uma mulher entrando e saindo, e a imagem muda o patamar da cobertura porque deixa de ser rumor e vira material circulável. Identificar a pessoa e decidir o que publicar deixa de ser debate teórico e vira obrigação diária dentro de uma redação. Para a campanha, o efeito é imediato: o tempo encurta e a margem de negociação diminui.
Irene Kelly é acionada para lidar com Donna Rice, e a crise ganha formato de tarefa: aproximar-se, avaliar risco, decidir um encaminhamento rápido. Irene manda Rice de volta a Miami e, com esse deslocamento, o problema muda de lugar sem perder força. Rice fica exposta ao assédio da imprensa, com invasão de privacidade e perseguição que o comitê não consegue conter, e a vida dela passa a ser tratada como assunto constante. Molly Ephraim dá a Irene o rosto do trabalho sob pressão, presa entre ordens internas e a incapacidade de controlar o lado de fora.
Bill Dixon pressiona Hart por uma resposta pública e encontra a mesma barreira que já travava as conversas anteriores. A insistência do coordenador força ensaios, revisão de falas e tentativa de alinhar postura para uma coletiva, enquanto a cobertura avança num ritmo que não espera planejamento. J.K. Simmons transforma Dixon num operador que mede estrago em horas, não em semanas, e isso aparece no modo como ele tenta manter a engrenagem funcionando com poucas ferramentas. A recusa de Hart, nesse ponto, deixa de parecer apenas convicção: vira uma falta concreta de instrumento para deter a próxima investida.
Um pacote anônimo com fotos chega ao Washington Post e empurra o dilema para dentro da redação. Um repórter questiona se aquilo é bom jornalismo, e um editor decide publicar, autorizando a cobertura a ocupar um terreno mais amplo. Para a campanha, a consequência é perda adicional de controle: o assunto circula com o respaldo de uma decisão institucional, e a defesa precisa se reorganizar enquanto a pergunta principal se repete, em público, por vias diferentes. O comitê tenta se preparar, mas a distância entre o que ensaia e o que acontece diante das câmeras só aumenta.
A coletiva concentra tudo num quadro direto: o candidato diante de um microfone, com uma resposta que não veio antes e precisa existir ali. A pergunta direta sobre adultério rompe o ensaio e derruba o plano de contenção, deixando equipe e candidato em improviso aberto. A crise atravessa a porta de casa com mais força, e Lee Hart encara o desgaste e a humilhação pública que chegam junto com perseguição e manchetes. Vera Farmiga dá a esse desgaste um contorno seco, sem atalhos: o impasse fica posto como escolha imediata — seguir sem resposta definitiva ou ceder ao assunto que já tomou o centro.
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