Em “Corta-fogo”, dirigido por David Victori, o drama íntimo de uma viúva se cruza com a pressão física de um incêndio florestal, e essa combinação dá ao filme um senso constante de urgência. Mara, vivida por Belén Cuesta, chega à casa de veraneio decidida a resolver pendências após a morte do marido. Ela quer organizar documentos, preparar o imóvel e viabilizar a venda. Ao lado dela estão familiares que tentam ajudar, entre eles o personagem de Joaquín Furriel, que assume a postura mais racional do grupo, tentando manter foco nas decisões concretas. Só que o cenário muda rapidamente quando o fogo começa a cercar a região, fechando estradas e reduzindo as opções de saída.
O que já era uma viagem emocionalmente delicada se complica de vez quando Lide, a filha pequena de Mara, desaparece. A partir desse momento, qualquer plano de venda perde importância. A busca vira prioridade absoluta, e o incêndio deixa de ser pano de fundo para se tornar obstáculo real. A fumaça limita a visão, o tempo encurta, e cada escolha passa a ter peso imediato. Victori conduz essa virada com firmeza, mantendo o foco nas ações práticas: quem procura onde, quem coordena, quem autoriza o quê. O suspense nasce menos de reviravoltas e mais da sensação de que o relógio corre contra todos.
É nesse contexto que surge Santi, o guarda florestal, figura central na organização das buscas. Ele conhece a área, impõe protocolos e tenta controlar o avanço das chamas. Ao mesmo tempo, torna-se alvo de suspeita, o que adiciona outra camada de tensão à história. A desconfiança não surge como espetáculo exagerado, mas como reflexo do medo. Quando uma criança desaparece e o ambiente está fora de controle, qualquer detalhe vira motivo de questionamento. O filme trabalha bem essa ambiguidade, deixando claro que autoridade e confiança nem sempre caminham juntas.
Belén Cuesta sustenta o filme com uma interpretação contida e muito física. Mara não faz discursos; ela age. Corre, insiste, confronta, pede explicações. O luto pelo marido existe, mas é engolido pela urgência de encontrar a filha. Joaquín Furriel funciona como contraponto, trazendo uma energia mais pragmática, quase administrativa, enquanto tenta organizar o caos familiar. Já a presença de Diana Gómez reforça o senso de rede de apoio, mesmo quando essa rede começa a se tensionar pelas circunstâncias extremas.
David Victori aposta em uma narrativa direta, sem floreios desnecessários. Ele prefere mostrar decisões e consequências em vez de transformar o incêndio em espetáculo visual vazio. O fogo está lá, ameaçando, avançando, impondo limites. Mas o centro da história permanece nas pessoas e na maneira como elas reagem quando perdem o controle da situação. O suspense funciona porque cada escolha parece concreta e arriscada, e porque a ameaça não é apenas externa. Há também o desgaste emocional, a dúvida e o peso da responsabilidade.
“Corta-fogo” não transforma o drama em melodrama exagerado. É um filme que entende que o verdadeiro perigo, muitas vezes, está na combinação entre circunstância extrema e fragilidade humana. Ao acompanhar Mara nessa corrida angustiante, o espectador sente que qualquer passo em falso pode custar caro. E é justamente essa sensação de risco real, ancorada em personagens palpáveis e decisões difíceis, que sustenta o impacto da história até o fim.
★★★★★★★★★★





