Quando um editor morre de repente, o que fica para trás não é só luto, mas uma redação obrigada a transformar despedida em trabalho. “A Crônica Francesa”, dirigido por Wes Anderson, parte dessa situação prática e constrangedora: Arthur Howitzer Jr., o fundador e editor da revista The French Dispatch, sofre um ataque cardíaco e deixa em testamento uma ordem clara, publicar uma última edição e encerrar as atividades. Não há negociação. A equipe precisa fechar o número final enquanto processa a perda e aceita que aquele escritório em Ennui-sur-Blasé, uma cidade francesa fictícia do século 20, está com os dias contados.
Wes Anderson organiza o filme como se estivéssemos folheando essa edição derradeira. Cada reportagem ganha corpo próprio, mas todas carregam o peso de serem as últimas. Benicio Del Toro aparece como um artista preso cuja obra desperta o interesse quase oportunista de um marchand interpretado por Adrien Brody. No meio desse embate entre talento e mercado está a crítica J.K.L. Berensen, vivida por Tilda Swinton, que transforma o caso em palestra e tenta dar sentido cultural ao que também é uma história de negociação e vaidade. Há humor evidente nessa situação: enquanto o pintor trabalha isolado na cela, o mercado discute cifras e reputações com uma naturalidade desconcertante.
Outra frente acompanha a jornalista Lucinda Krementz, que cobre um protesto estudantil iniciado por uma questão aparentemente banal de acesso ao dormitório feminino. O que começa pequeno cresce, ganha contornos políticos e exige da repórter mais do que simples observação. Ela precisa ouvir líderes jovens, lidar com autoridades e decidir o que entra no texto sem perder a complexidade do momento. Anderson conduz tudo com ritmo preciso, alternando enquadramentos rigorosos e diálogos rápidos, o que dá à revolta um ar ao mesmo tempo sério e levemente absurdo.
Há ainda o relato de Roebuck Wright, convidado para um jantar privado com o comissário de polícia da cidade, preparado pelo tenente Nescaffier. A cena mistura alta gastronomia e tensão institucional. Wright observa, escuta, mede palavras. Publicar demais pode fechar portas; publicar de menos pode esvaziar a matéria. É nesse equilíbrio que o filme encontra um dos seus melhores momentos, revelando como o jornalismo vive de acesso e risco na mesma proporção.
O charme visual típico de Wes Anderson está todo ali: simetria obsessiva, cores calculadas, cenários que parecem maquetes vivas. Mas, por trás da estética caprichada, há algo mais simples e humano. “A Crônica Francesa” fala de profissionais tentando honrar um editor exigente, de repórteres que acreditam no valor da própria assinatura e de textos que precisam existir mesmo quando a instituição que os abriga está prestes a desaparecer. É uma comédia com tom melancólico, um drama leve sobre prazos e legado. Sem recorrer a grandes reviravoltas, o filme conquista pelo cuidado com cada personagem e pela sensação de que estamos lendo, na tela, a última edição de uma revista que não queria fechar.
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