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No Prime Video: o terror romântico mais bizarro do ano — um casal descobre que amor demais pode virar monstruosidade Divulgação / Diamond Films

No Prime Video: o terror romântico mais bizarro do ano — um casal descobre que amor demais pode virar monstruosidade

Relações são quase sempre pautadas por crises, e não é incomum encontrar homens e mulheres que digam serem adeptos de um súbito gelo a fim de que a chama do amor arda outra vez, com mais força. Por baixo de um problema aparentemente banal costuma haver outros, esses, sim, de resolução delicada, e portanto qualquer medida que não contemple mudanças profundas de parte a parte, com direito à investigação minuciosa de questões graves de um passado remoto que teima em voltar sob a forma de ondas de terror, há de ser inócua — e tanto pior se encarada por um único lado, como se o problema não fosse de ambos. Enroscos conjugais são perfeitos para o terror, como fica claro em “Juntos”, que esgrime o tema mirando inovações linguísticas refrescantes. Em sua estreia na direção de longas, Michael Shanks propõe um horror corporal com direito a metamorfoses bizarras para falar sobre os desenganos de um homem e uma mulher descobrindo que vida em comum não é o atalho para o paraíso. E que pode ser o inferno.

Tentativa e erro

Para Tim e Millie, as humanas misérias ressoam como sinos de uma estranha catedral perdida no deserto, reverberando aquele barulho aos confins do mundo na lembrança da danação eterna. Eles tentam, tentam, mas dia após dia se convencem de que há qualquer coisa a obstruir seu amor. Tim, um músico de trinta e poucos anos, ainda batalha por uma oportunidade em apresentações intimistas das boates de East Village, enquanto a professora Millie não tem nenhuma aspiração que não seja continuar lecionando para crianças. Eles resolvem se mudar para algum lugar bucólico no que parece ser Long Island, numa óbvia fuga de aborrecimentos com que já haviam se deparado não muito tempo atrás, e todo mundo que já tenha superado as ilusões rosicleres da adolescência sabe que não irão consegui-lo. O diretor-roteirista concentra-se em episódios

à primeira vista banais dessa nova etapa do relacionamento dos dois para mencionar uma sequência de fatos misteriosos, a exemplo de uma família de roedores apodrecendo acima do lustre da sala. Também aproveita que seus protagonistas têm uma ligação para além da tela a fim de tornar sua história ainda mais incômoda.

Tão perto e tão longe 

Na pele de Tim e Millie, Dave Franco e Alison Brie parecem encarnar suas próprias alegrias e frustrações no casamento, o que faz de “Juntos” um filme bastante maduro — embora o nonsense seja mesmo sua marca. Quando uma aproximação torna-se possível e eles fazem sexo no banheiro masculino da escola onde Millie trabalha (!), manifesta-se o fenômeno que justifica o título, com toques de David Cronenberg e John Carpenter, e eles reconhecem, afinal, que se precipitaram. Shanks embaralha um tanto a narrativa incluindo Jamie, o chefe de Millie interpretado por Damon Herriman, mas nunca deixa de falar é de casais que se perdem uns dos outros não por falta de amor. Aqui, o problema é seu excesso.

Filme: Juntos 
Diretor: Michael Shanks
Ano: 2025
Gênero: Drama/Romance/Terror
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.