Ficar preso em um trem a mais de 300 km por hora já seria desconfortável; imagine dividir o vagão com assassinos profissionais disputando a mesma maleta. É essa a premissa divertida de “Trem-Bala”, dirigido por David Leitch, que transforma um trajeto entre Tóquio e Morioka em um campo de batalha apertado, barulhento e surpreendentemente engraçado. Ladybug, vivido por Brad Pitt, é um matador cansado do próprio histórico de azar. Ele aceita a missão de pegar uma maleta e sair discretamente na próxima parada, tentando provar para si mesmo que consegue trabalhar sem deixar um rastro de caos. O plano parece simples até ele perceber que não é o único atrás do objeto.
Dentro do Shinkansen, circulam figuras igualmente perigosas e com interesses que se cruzam. Tangerine, interpretado por Aaron Taylor-Johnson, e seu parceiro Lemon têm seus próprios compromissos ligados à maleta e a um passageiro específico, e não demonstram qualquer disposição para negociar com estranhos. Kimura embarca movido por questões pessoais que rapidamente complicam ainda mais o ambiente. E há Prince, vivida por Joey King, que usa uma aparência frágil para manipular situações com frieza calculada. Cada encontro no corredor estreito muda o equilíbrio de forças, porque ninguém ali está disposto a ceder o que considera seu.
Como se já não bastasse a disputa entre profissionais armados, surge a informação de que há uma bomba a bordo, programada para explodir se o trem reduzir a velocidade abaixo de 80 quilômetros por hora. A ameaça altera completamente as regras do jogo. Parar deixa de ser uma opção simples e transforma o maquinista e o próprio ritmo da viagem em fatores decisivos. Ladybug, que entrou querendo evitar confronto, percebe que sair ileso dependerá de improviso constante e de uma habilidade rara naquele ambiente: conversar antes de atirar.
O filme mistura ação coreografada com humor autodepreciativo, muito apoiado no carisma de Brad Pitt. Ladybug comenta terapia, destino e azar enquanto tenta desarmar situações que saem do controle a cada nova porta automática que se abre. Funciona porque o humor não está ali apenas para aliviar a tensão, mas para mostrar o quanto ele prefere resolver tudo sem violência, mesmo cercado por pessoas que pensam exatamente o contrário. Quando a piada falha, o risco aumenta imediatamente.
David Leitch conduz a história mantendo a câmera colada aos personagens, explorando o espaço limitado dos vagões e usando a velocidade do trem como relógio dramático. Não há fuga fácil, não há pausa estratégica; cada decisão precisa ser tomada em movimento. “Trem-Bala” é exagerado, estilizado e consciente do próprio absurdo, mas nunca perde de vista o objetivo central: quem ficará com a maleta e conseguirá descer na plataforma quando a viagem terminar. Até lá, o que se vê é um jogo acelerado de alianças temporárias, traições e tentativas desesperadas de manter o controle em um lugar onde ninguém tem realmente o comando.
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