Aos solavancos, a humanidade resiste às velhas formas de exploração e alienação do trabalho. Jornadas de vinte horas de batente diário fazem parte de um passado não muito distante — e, vira e mexe, surge um escândalo nessa área, colocando sob suspeita nossos avanços como civilização —, ao passo que a atividade laboral vem ganhando contornos inéditos depois do trabalho remoto e dos aplicativos de transporte e entrega. Manchester, uma cidade fabril no noroeste da Inglaterra, testemunhou a espiral de profundas mudanças que sacudiram o planeta após a Revolução Industrial (1760-1840), um dos assuntos que o criterioso Mike Leigh esgrime em “Peterloo”. Em 154 minutos, o diretor-roteirista joga luz sobre um episódio fundamental para a consolidação dos direitos da classe trabalhadora, deixando para o final a sequência que justifica o longa e reafirma seu pessimismo diante das escolhas que temos feito.
Sobre homens e lobos
Em16 de agosto de 1819, soldados da cavalaria real investiram contra a multidão de cerca de sessenta mil a oitenta mil pessoas que pleiteavam a reforma da representação parlamentar no Reino Unido. O saldo funesto da operação foi de dezoito mortos e quase mil feridos, e essa era a imagem que Leigh perseguia há algum tempo, na intenção de sustentar o pioneirismo britânico na causa. Não é difícil, uma vez que, quando dos protestos, Karl Marx (1818-1883) era uma criança de pouco mais de um ano de idade, os operáriosda velha Álbion já tinham noções rudimentaresdeorganização sindical e não se furtavam em denunciar suas mazelas e pensadores a exemplo de Thomas Hobbes (1588-1679) nunca saíram do radar de Oxford e Cambridge. Assim, a epopeia proposta por Leigh ganha cores de um ufanismo autêntico, galvanizada por atuações poderosas.
Padrão Shakespeare
Sempre que o enredo ameaça pesar, Leigh dá um jeito de fazer com que o espectador não perca o interesse, seja pela bela fotografia de Dick Pope, seja pelos diálogos ágeis e lúcidos de personagens que encarnam uma pobreza digna, nem heróis nem vilões, mas gente à beira do precipício. O honrado Lord Liverpool (1770-1828), o primeiro-ministro interpretado por Robert Wilfort, vai de um extremo a outro, por ter de quebrar muitos ovos para fazer uma omelete, mas a estrela aqui é mesmo David Moorst. Joseph, o soldado que volta das Guerras Napoleônicas (1803-1815) para morrer na ponta da espada de um covarde em St. Peter’s Field, lembra o idealismo de Hamlet, mas sem o berço nobre do príncipe da Dinamarca criado pelo Poeta dos Poetas. Talvez Mike Leigh tenha sido passional além da conta, mas é impossível não ver em “Peterloo” um épico tocante, padrão Shakespeare de qualidade.
★★★★★★★★★★




