“O Último Amor de Mr. Morgan” acompanha Matthew Morgan, vivido por Michael Caine, um professor americano aposentado que mora em Paris, mas nunca aprendeu francês. Durante anos, quem traduziu o mundo para ele foi a esposa, Joan, interpretada por Jane Alexander. Desde a morte dela, três anos antes, Matthew circula pela cidade como um estrangeiro permanente: pega ônibus sem entender os avisos, evita conversas, dá aulas esporádicas de inglês e volta para um apartamento silencioso demais. Ele escolhe ficar, mas essa escolha cobra um preço claro: solidão diária e dependência prática.
Tudo muda quando, em um ônibus, ele é ajudado por Pauline, personagem de Clémence Poésy, uma professora de dança atenta e gentil. O encontro começa com um gesto simples, quase burocrático, mas rapidamente se transforma em amizade. Pauline enxerga em Matthew a fragilidade de alguém que precisa de companhia; ele vê nela uma energia que lembra Joan e, ao mesmo tempo, aponta para algo novo. A aproximação devolve movimento à rotina dele: cafés, conversas, ensaios de dança assistidos com curiosidade e certo constrangimento. Há momentos de humor delicado, principalmente quando Matthew tenta se adaptar a ambientes que claramente não são os seus, e Michael Caine faz isso com uma elegância que mistura ironia e vulnerabilidade.
A relação, no entanto, não acontece no vazio. Os filhos de Matthew observam à distância e se preocupam com as escolhas do pai. Eles questionam a permanência em Paris, a proximidade com Pauline e a própria capacidade dele de viver sozinho em um país cuja língua não domina. Esses conflitos familiares dão peso à história e impedem que ela se torne apenas um romance tardio. Há tensão, há ressentimentos antigos, e há o medo real de que decisões impulsivas tenham consequências difíceis de reverter.
Quando a tristeza volta a falar mais alto, Matthew enfrenta um momento limite que altera a dinâmica entre todos. O filme não transforma esse episódio em espetáculo, mas o trata como um sinal claro de que a solidão não é apenas um estado de espírito, é uma condição que pode levar a atos extremos. A partir daí, as relações se reorganizam: Pauline deixa de ser apenas companhia agradável e passa a ocupar um lugar mais firme; os filhos são forçados a rever posturas; e o próprio Matthew precisa encarar o que realmente deseja para os anos que ainda tem.
Dirigido por Sandra Nettelbeck, o filme aposta em gestos pequenos e situações cotidianas para falar de temas grandes como luto, envelhecimento e pertencimento. Não há pressa nem reviravoltas artificiais. A câmera observa apartamentos, ônibus e salas de ensaio como espaços onde decisões discretas redefinem a autonomia de um homem que teme perder o controle da própria vida. Michael Caine sustenta tudo com uma atuação contida, cheia de nuances, enquanto Clémence Poésy equilibra doçura e firmeza sem cair em idealizações.
“O Último Amor de Mr. Morgan” é uma história sobre recomeços possíveis, mas também sobre limites reais. Sem exageros e sem sentimentalismo barato, o filme mostra que escolher ficar, partir ou amar de novo nunca é simples, especialmente quando o tempo já deixou marcas visíveis. E é justamente nessa delicadeza que ele encontra sua força.
★★★★★★★★★★




