Em “Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out”, Rian Johnson traz Benoit Blanc de volta ao centro do caos, agora em um cenário que não permite conforto nem distanciamento. O detetive vivido por Daniel Craig surge em uma cidade pequena, onde um assassinato cometido diante de várias testemunhas vira um problema coletivo. Nada ali está fora do alcance dos olhos, mas quase tudo permanece fora do entendimento. É nesse terreno instável que a história se organiza, sem pressa de entregar respostas e sem interesse em facilitar o caminho.
Blanc não chega com carta branca. Ele entra como um estranho, sem autoridade formal, dependendo da boa vontade alheia para avançar um centímetro. A chefe de polícia local, interpretada por Mila Kunis, controla o ritmo da investigação e decide o que pode ou não ser acessado. Ela não é hostil, mas também não cede facilmente. Cada conversa, cada deslocamento e cada pedido de informação exige negociação. O efeito disso é imediato: o mistério avança aos solavancos, sempre ameaçado por bloqueios institucionais.
Daniel Craig ajusta o personagem a esse novo ambiente com precisão. Seu Benoit Blanc continua observador e irônico, mas agora parece mais exposto. Ele fala menos do que sabe, escuta mais do que comenta e mede cada movimento. Não é um detetive que domina a cena, e sim alguém tentando não perder o pouco espaço que conquistou. Essa fragilidade prática deixa o personagem mais interessante e, curiosamente, mais humano.
Josh O’Connor interpreta uma figura que circula entre diferentes grupos da cidade e se torna peça-chave justamente por não pertencer totalmente a nenhum deles. Seu personagem negocia informações incompletas, protege a si mesmo e testa limites o tempo todo. Cada encontro com Blanc traz algum avanço, mas também aumenta o risco de exposição. O filme é claro ao mostrar que, ali, saber demais pode ser tão perigoso quanto não saber nada.
Glenn Close aparece como uma presença de peso, alguém cuja influência não depende de cargo oficial, mas de posição social. Quando ela fala, portas se abrem ou se fecham. Sua personagem não participa da investigação de forma direta, mas interfere no jogo ao autorizar acessos e impor limites silenciosos. Blanc entende rapidamente que enfrentá-la seria improdutivo. Ele prefere contornar, acumular dados e esperar o momento certo para agir, mesmo que isso atrase respostas.
O humor, marca registrada da franquia, surge de forma mais seca e funcional. Blanc usa comentários aparentemente banais para quebrar tensões, ganhar alguns minutos extras de conversa ou evitar que encontros terminem cedo demais. Essas tiradas não resolvem conflitos, mas criam brechas. O filme trata a comédia como ferramenta de sobrevivência, não como alívio fácil. Toda piada tem um efeito prático, e quase sempre cobra seu preço depois.
O suspense cresce a partir da pressão institucional. À medida que o caso ganha atenção, autoridades passam a impor prazos, rever permissões e proteger suas próprias posições. Personagens recuam, se reorganizam e renegociam alianças. Blanc responde reduzindo sua exposição e concentrando esforços no que pode ser confirmado sem alarde. O ritmo fica mais contido, mas também mais tenso, porque cada escolha implica abandonar outra possibilidade.
Rian Johnson mantém o foco nas consequências das decisões, não em reviravoltas espalhafatosas. A encenação privilegia conversas interrompidas, acessos negados e informações que chegam tarde demais. A técnica aparece para controlar o tempo e a expectativa do espectador, alongando esperas ou cortando cenas no momento exato em que algo importante poderia ser dito. Isso reforça a sensação de que a verdade está sempre ao alcance, mas nunca completamente disponível.
“Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out” se sustenta menos como quebra-cabeça e mais como retrato de um processo investigativo sob vigilância constante. Benoit Blanc não vence porque é mais inteligente, mas porque sabe quando insistir, quando ceder e quando simplesmente permanecer em cena. O filme encerra deixando claro que, naquele jogo, manter o acesso já é uma forma de vitória.
★★★★★★★★★★




