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O detalhe mais assustador não é a aparição: é o “intervalo” que a Netflix te obriga a encarar Divulgação / United International Pictures

O detalhe mais assustador não é a aparição: é o “intervalo” que a Netflix te obriga a encarar

Rachel Keller entra no começo com o corpo ainda preso ao que aconteceu há pouco. Naomi Watts segura isso no olhar e no jeito de parar antes de atravessar uma porta. “O Chamado 2” pega essa contenção e já empurra a trama. A maldição volta cedo, e a mãe passa a contar os passos. A mudança para Astoria vira tarefa prática: caixas, deslocamento, casa nova, rotina refeita às pressas. A tentativa de reduzir risco pelo afastamento dura pouco. A fita retorna e o relógio volta a mandar na agenda.

Muda a cidade, mas certos sinais ficam mais frequentes. A água aparece mais e volta como gatilho. O filme insiste em canos, banheiras, chuveiros, poças e umidade em lugares impróprios. Quase sempre o procedimento é o mesmo: o som sobe, a câmera encosta, o corte demora, e a cena segura alguns segundos a mais até o susto chegar. Depois de algumas voltas, o público aprende o caminho e passa a esperar o golpe. A espera cresce, e o susto perde efeito.

Portas, caixas e relógio

Entra Max Rourke, e a casa ganha um novo adulto circulando e reorganizando a coordenação. Simon Baker faz alguém que pode ajudar, passar pela porta, observar Aidan e dizer o básico: o problema voltou. Ele rende mais quando o filme coloca duas pessoas na mesma sala, no mesmo momento, decidindo o que fazer agora. A urgência aparece em tarefas e deslocamentos imediatos. Quando o roteiro abandona isso e estende explicações, a fala ocupa a cena, o corte não muda de sala e o minuto pesa.

Fica para David Dorfman, como Aidan, a parte mais ingrata: sustentar sinais físicos e mudança de comportamento sem controle. O filme retorna ao desconforto de uma criança que perde o domínio do próprio corpo em momentos imprevisíveis. O corte sai de uma conversa comum para um evento abrupto ligado ao menino, e a virada vem seca. Para segurar a sessão, o longa volta ao mesmo tipo de ocorrência. Cada retorno deixa o mecanismo mais aparente. O que deveria ser exceção vira rotina de cena, e o medo passa a depender de volume e espera.

A continuação desloca o centro do que movia a franquia. “O Chamado” (2002, Gore Verbinski) empurrava Rachel para uma investigação com etapas, com o tempo como inimigo direto. Aqui o relógio continua ali, mas o roteiro coloca a mãe mais vezes reagindo do que buscando. A atenção exigida muda junto. Em vez de etapas nítidas, o filme prende Rachel em ambientes em que algo pode acontecer a qualquer momento. Em vários trechos, a sessão roda no mesmo circuito: volta para a casa, volta para a água, volta para Aidan, volta para um aviso. O deslocamento existe, mas nem sempre abre caminho; muitas vezes só atrasa a próxima etapa.

Banheiras, canos e espera

Samara retorna, e o filme alterna duas maneiras de colocá-la na tela. Às vezes ela entra rápido, em recorte curto, e o susto sai limpo. Em outras, o longa prolonga a presença e estica o tempo de exposição. A consequência é direta: cenas que poderiam terminar em segundos viram minutos, com cortes mais lentos e mais tempo parado até a ação acontecer. Na cadeira, essa dilatação pesa. A energia cai quando o medo depende de paciência.

Esse vai e vem cai sobre Naomi Watts. Com Rachel em deslocamento — dirigindo, entrando em lugares, tentando fechar uma etapa — a cena anda porque existe um objetivo imediato e um caminho até ele. O público entende a urgência daquele momento. Quando ela fica presa a trechos de observação prolongada, com a câmera insistindo até o fenômeno aparecer, a imagem demora e a espera cresce. A atriz segura o quadro, mas o percurso se repete. Rachel percebe, tenta evitar, falha, corre de novo. A cada volta, o filme pede mais minutos para chegar ao que já anunciou.

Ainda assim, “O Chamado 2” acerta quando simplifica. A casa vira área de risco por detalhes pequenos, e a montagem entra, corta, interrompe e retoma como se qualquer corredor pudesse virar armadilha. Nessas horas, o diretor encurta a distância até o susto e entrega o golpe sem rodeio. Quando mantém essa linha, a cena fica curta, a informação é mínima e a reação vem rápida. Só que essa disciplina não dura. Entre um disparo e outro, entram trechos explicativos e cenas esticadas que aumentam a espera e gastam energia.

No saldo da sessão, a continuação mantém o básico da franquia — a fita, o retorno, o terror doméstico — de modo irregular. Quem entra esperando algo mais direto vai sentir o alongamento e a repetição do circuito. Quem aceita a volta ao mesmo trajeto encontra alguns sustos eficazes, desde que tolere intervalos longos. “O Chamado 2” alterna rapidez e demora; quando encurta, prende, quando estica, exige paciência. Termina, e o espectador levanta da cadeira com a sensação de ter esperado mais do que levou susto.

Filme: O Chamado 2
Diretor: Hideo Nakata
Ano: 2005
Gênero: horror/Mistério
Avaliação: 7/10 1 1
★★★★★★★★★★