Há comédias românticas que pedem disposição e outras que pedem só um horário livre e tolerância ao óbvio. “Doce Lar”, de Andy Tennant, escolhe o segundo caminho e não esconde isso. A história tira a protagonista de um lugar onde tudo parece resolvido e a manda de volta para o que ficou pendente. O filme prende o público numa coisa simples: ela quer encerrar um vínculo antigo, mas o lugar e as pessoas atrasam cada passo.
Reese Witherspoon entra como Melanie, uma mulher que já toca a vida em Nova York e precisa interromper a rotina para resolver o que ficou no Alabama. No começo, ela opera no modo de trabalho e vitrine, com agenda cheia e uma roda social que cobra presença. A narrativa não alonga explicação. Quando ela aceita um pedido de casamento, vira prazo. A partir daí, ela troca o brilho do início por deslocamento, espera e incômodo. Cada avanço com o noivo depende de uma assinatura do passado.
Estrada de volta ao Alabama
A ida ao Alabama coloca Josh Lucas em cena como Jake, o marido de quem ela quer o divórcio. Ele vira obstáculo direto: aparece, atrasa, corta caminho, insiste. O roteiro usa essa resistência para esticar situações que já se anunciam cedo. A graça não vem de surpresa; vem de repetição com pequenas mudanças. Um encontro vira dois. Uma tentativa vira negociação. Uma conversa vira discussão pequena e depois um acerto provisório. Na prática, Melanie perde horas, gasta energia e passa a medir cada gesto porque a cidade inteira parece ter opinião.
Patrick Dempsey entra como Andrew, o noivo rico e bem colocado que organiza o presente dela em Nova York. O papel fica perto do polo estável: gestos educados, confiança, pouco atrito. Essa estabilidade, porém, depende de silêncio e de calendário. “Doce Lar” traz barulho o tempo todo. Quando Andrew aparece, ele vira relógio: ela precisa voltar rápido, encerrar o divórcio e manter uma versão de si que funcione na cidade. Assim, cada telefonema e cada pausa lembram que o tempo está correndo.
O filme trabalha com contraste de ritmos. Nova York começa com evento, loja e pedido público. O Alabama entra com casa, estrada e gente que puxa conversa e não solta. A direção organiza isso em cenas que retornam ao mesmo ponto: sempre que Melanie tenta atravessar uma situação e seguir, alguém interrompe, pede mais um minuto, puxa o assunto para o que ela quer esconder. Não há espaço para resolver coisa em silêncio. A história prefere choque social. A personagem paga com cansaço, e Witherspoon deixa isso no rosto e no corpo, sem discurso.
O humor nasce mais do embaraço do que de invenção. Ele depende de Melanie diante de pessoas que a conhecem de antes, e do choque entre o que ela virou e o que esperam que ela continue sendo. Em muitas cenas, a graça vem do atraso: a conversa passa do ponto, a visita dura além do combinado, a explicação vira desvio e abre outro constrangimento. Isso pode cansar quem quer que o filme ande. Ao mesmo tempo, é esse atraso que dá a sensação de convivência forçada, que o gênero usa como motor.
Relógio correndo e telefonemas
A história também aposta num suspense doméstico: por quanto tempo ela mantém segredo e quando alguém joga isso na mesa. Não é suspense de virada, é suspense de exposição. O filme repete um movimento: aproxima, encurrala, corta para reação, e devolve Melanie para mais uma tentativa de controle. Em termos de sessão, isso dá a impressão de retorno constante ao mesmo problema. Cada solução provisória abre outra conversa, outra justificativa, outra negociação.
Tennant dirige de forma direta, com cena clara e marca conhecida do gênero. A câmera não disputa atenção; acompanha a ação e deixa os atores no centro. Quando precisa andar, encurta a passagem entre lugares. Quando quer alongar uma situação, segura a protagonista no quadro até o desconforto aparecer. Não há ousadia, mas há organização. A comédia romântica aqui depende mais de tempo de cena e reação do que de grandes achados. O risco é a previsibilidade chegar cedo. A vantagem é que o público sempre sabe o que está em jogo: agenda, retorno, assinatura e decisão.
Em certo ponto, “Doce Lar” se acomoda demais na própria fórmula. As situações se repetem com variações pequenas, e a narrativa confia que a simpatia do elenco dá conta do resto. Witherspoon tem presença para segurar atenção em cenas longas. Lucas mantém o papel do homem que não facilita. Ainda assim, o filme cobra paciência quando contorna o mesmo nó por mais tempo do que precisa. No meio, ele pode arrastar para quem espera avanço rápido. Para quem aceita o passeio, a recompensa é constante e modesta: trocas de olhar, conversas que apertam o romance e a sensação de estar vendo um produto que não tenta parecer outra coisa.
“Doce Lar” combina com um dia de pouca energia e expectativa ajustada. Ele não mira reinvenção do gênero e não depende de mistério para prender. Empurra Melanie de volta para um lugar que a conhece demais e a obriga a gastar tempo com gente que não aceita resposta curta. A sessão avança nesse empurra-empurra, sem fogos e sem pose. No último trecho, quando a decisão se aproxima, o filme segura a câmera nela por um instante e deixa o gesto contar mais do que qualquer explicação.
★★★★★★★★★★


