Em “O Assassino Perfeito”, Antonio Banderas interpreta Cuda, o típico homem que passou a vida inteira resolvendo problemas sujos para pessoas ainda piores. Ele é o principal executor de uma organização criminosa em Miami, alguém acostumado a obedecer ordens sem fazer perguntas. Isso muda quando Cuda descobre que sua chefe, Estelle (Kate Bosworth), colocou uma jovem em perigo direto. A partir desse ponto, o filme deixa claro que não existe mais espaço para neutralidade: continuar significa compactuar, sair significa virar alvo.
Cuda não é apresentado como herói. Ele carrega o peso de tudo o que construiu para o crime e sabe exatamente como o sistema reage quando alguém tenta romper. A decisão de proteger a jovem Billie (Zolee Griggs) não nasce de idealismo, mas de exaustão moral. Ele já viu demais, fez demais e entende que aquela pode ser sua última chance de fazer algo certo antes que o passado cobre a conta. Essa consciência dá ao personagem uma urgência silenciosa que Banderas sustenta com economia de gestos e um cansaço visível no olhar.
Kate Bosworth constrói Estelle como uma líder fria, prática e calculista. Ela não precisa levantar a voz para impor autoridade, porque seu poder já está estabelecido. O confronto entre ela e Cuda não é explosivo no sentido clássico; é tenso justamente porque ambos sabem o que está em jogo. Cada conversa, cada recuo ou ameaça velada reforça a sensação de que não existe espaço para acordos duradouros dentro daquela estrutura criminosa.
A relação de Cuda com Billie funciona como eixo emocional do filme. Zolee Griggs interpreta a jovem sem exageros, evitando o tom de vítima passiva. Ela entende rapidamente o perigo ao redor e reage com desconfiança, o que torna a aproximação entre os dois mais crível. Não há sentimentalismo fácil: o vínculo se constrói a partir da necessidade e da sobrevivência, não de discursos.
Richard Hughes dirige a história de forma direta, sem tentar sofisticar o que é essencialmente um thriller de ação com forte carga moral. Miami aparece como um espaço funcional, feito de ruas, esconderijos e zonas de risco, mais do que como cartão-postal. A violência surge como consequência natural das escolhas dos personagens, nunca como espetáculo isolado.
O maior acerto do filme está em tratar redenção como algo caro e incerto. Cuda não busca absolvição nem aplauso; ele tenta corrigir um erro sabendo que pode não sair vivo. Essa abordagem dá peso às decisões e evita transformar a trama em uma fantasia de redenção fácil.
“O Assassino Perfeito” funciona melhor quando aposta nesse equilíbrio entre ação e consciência pesada. Não reinventa o gênero, mas entrega um suspense sólido, ancorado em personagens que parecem saber exatamente quanto custa cruzar a linha errada, e mesmo assim decidem avançar.
★★★★★★★★★★



