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Jacques Fux e as irmãs Dutilh: documentos de família viram literatura — e ferida histórica

Jacques Fux e as irmãs Dutilh: documentos de família viram literatura — e ferida histórica

Os começos, assim como os finais, nos fazem olhar para a vida de forma diferente. De um lado, promessas de páginas em branco que escreverão, se der certo, uma história que valha ser lembrada. Do outro, o risco de que tudo o que se passou seja enterrado e esquecido. O esquecimento que encerra a morte, mas que, ao mesmo tempo, apaga a vida para sempre. A morte dos mortos.

Marguerite sussurra e, aos poucos, desperta vidas adormecidas. Seu ato de resistência: quer mantê-las vivas, mesmo quando não mais estiver aqui. O banqueiro e sua esposa, visionários e filantropos; o alpinista e a botânica. A escola moderna, a carta de Einstein, o mundo em guerra. Kato Lechonia, murmura a velha. Kato Lechonia.

Uma história que começa numa aldeia pequena na costa da Grécia, continua na Holanda e chega ao Brasil. Três países e um trauma. Três gerações e uma ferida que precisa ser cicatrizada. A trajetória de uma família marcada pela brutalidade da Segunda Guerra Mundial. “Para que Suas Lágrimas Parem de Jorrar”, o novo livro do escritor mineiro Jacques Fux e das irmãs Maria e Julie Dutilh, narra uma história tão real quanto o legado que deixou. Segredos, dores e sentimentos complexos, daqueles que demandam vontade para apaziguar.

Para que suas lágrimas parem de jorrar
Para que Suas Lágrimas Parem de Jorrar, de Jacques Fux e Maria e Julie Dutilh (Editora 7 Letras, 2025)

“Para que Suas Lágrimas Parem de Jorrar” contém memórias, documentos, fotos e muita pesquisa. Um livro que resgata biografias pessoais, faz um recorte histórico de um momento especialmente conturbado e dá voz a quem não deve ser esquecido. Ficção ou romance? Talvez um romance documental seja melhor. Ao ler o livro, o leitor pode escutar o som de crianças brincando na mansão, simples para os padrões da família, mas que era grande demais para que suas portas fossem abertas aos vizinhos gregos no tempo esperançoso entre guerras. Dias iluminados e a inocência que antecede a tragédia. De não se proteger do conflito que se fermentava na Europa do século passado e que mudaria seus destinos. Os moradores da casa imponente são apresentados e, aos poucos, vão contando histórias cujas lacunas são preenchidas com sensibilidade na escrita cuidadosa de Jacques Fux.

Panagiotis (Ioti), o visionário, que morreu antes de ver o que seria de sua família. Constantin, que ficou na montanha. Dois homens que tombaram. A energética Lucie e a lutadora Sofika, as mulheres que restaram para resistir e desafiar a estupidez dos invasores. Mama Marguerite, que sonhava em visitar Lucie na Grécia e que carregou consigo a dor e a herança de um desfecho tão cruel. Maria e Julie, que se enchem de coragem para remexer e reviver as dores do trauma. São todos personagens de uma narrativa cheia de questionamentos. “Vocês, mãe e filha, resistiram ou insistiram? Vocês, combatentes, combativas, mecenas, filantropas, viviam alienadas ou estavam atentas ao perigo? Ao perigo que lentamente invadia a terra, a casa, seus pertences e até seus corpos?”

Irmãs Dutilh, coautoras do livro
Irmãs Dutilh, coautoras do livro

O livro nos lembra que o trauma é uma experiência intensa, duradoura, mas, acima de tudo, universal. Nenhum de nós está imune a ele. O trauma tampouco se desfaz cruzando continentes, nem mesmo com recomeços em terras tropicais. A literatura talvez tenha o poder de estancar o desconforto. Foi esta a aposta de Maria e Julie, que tornaram a busca pela memória uma missão, uma homenagem e uma forma de agradecimento.

Como disse o escritor português Valter Hugo Mãe, “não podemos humilhar nossos mortos fazendo com que eles signifiquem tristeza”. À primeira vista, “Para que Suas Lágrimas Parem de Jorrar” não é um livro de redenção, daqueles com finais felizes. Sem dúvida, ele busca respostas e se propõe a combater o esquecimento. Talvez consiga muito mais do que isso. Parece que, ao resgatar a memória de uma família destruída pela guerra, os autores acabam descobrindo que é possível reconhecer o passado, mesmo com todo seu sofrimento, e seguir adiante sem traumas. Por isso, uma fotografia, a mais atroz de todas, ficará para sempre fora da publicação. Mas isso só quem ler o livro descobrirá.