Quando foi lançado, “Os Sonhadores”, de Bernardo Bertolucci, foi recebido com aclamação quase imediata. Críticos respeitados, como Roger Ebert, exaltaram a beleza poética do filme, ainda que ele já carregasse um potencial controverso. Vinte e três anos depois, após sucessivas revisitações, o olhar crítico mudou, e mudou de forma significativa. Até mesmo pelas polêmicas em que o diretor se envolveu. Isabelle, a jovem interpretada pela talentosíssima e deslumbrante Eva Green, passou a ser lida como símbolo de mulheres silenciadas, objetificadas e erotizadas. Tomo a mim mesma como exemplo: há mais de uma década, quando assisti ao longa pela primeira vez, tive uma impressão profundamente romantizada. Hoje, minha leitura é outra: muito mais clara quanto ao verdadeiro objetivo de Bertolucci à época.
Ambientado na primavera de 1968, quando jovens franceses da elite tomavam as ruas de Paris em manifestações contra a guerra e em defesa da cultura, do cinema e da arte, um despertar que ecoa até hoje em movimentos como a Nouvelle Vague, o filme acompanha os irmãos burgueses Théo (Louis Garrel) e Isabelle (Eva Green), que conhecem, na Cinémathèque Française, o estudante norte-americano Matthew (Michael Pitt). Após um convite para jantar em seu apartamento, no centro da capital francesa, Matthew é convidado a passar a noite. Os pais de Théo e Isabelle estão prestes a viajar e autorizam a permanência do novo amigo.
Depois de uma noite estranha, em que Matthew flagra os irmãos dormindo juntos, nus, na mesma cama, ele é convidado a ficar no apartamento por um mês, durante a ausência dos pais. Matthew aceita. E fica. Ao longo desse período, vive uma espécie de utopia: o sonho confortável da esquerda caviar parisiense dos anos 1960. Théo e Isabelle levam a vida como crianças prolongadas, opinando sobre política, imitando cenas de filmes e propondo desafios eróticos. Matthew entra no jogo. Envolve-se romanticamente com Isabelle, ainda sem compreender por completo a natureza da relação dela com o irmão.
Se, quando mais jovem, eu via “Os Sonhadores” como um retrato sedutor de jovens livres, inteligentes e politicamente conscientes, hoje percebo que Bertolucci fazia justamente o oposto: ele os criticava. Como pude não ter percebido algo tão evidente? Algo que o próprio Matthew verbaliza sem rodeios. Em uma cena decisiva, ele confronta Théo após o anfitrião discursar sobre paz, cultura e luta de classes. Matthew então o desmonta com uma frase simples e brutal: aquilo não é luta, é encenação confortável.
Matthew está absolutamente certo. Théo e Isabelle passam o filme inteiro trancados em um apartamento de classe média alta em Paris, sustentados pelo cheque deixado pelos pais. Os irmãos se envolvem sexualmente, mas essa escolha de Bertolucci não é para chocar o público; funciona como metáfora da transgressão. Eles acreditam estar quebrando regras, mas que consequência real poderia existir quando os pais não veem, ou não se importam com, o que acontece? Théo se diz maoísta, mas dorme em lençóis de seda, vive do dinheiro da família e não se coloca em risco no mundo exterior. Não sabe o que é trabalhar, se submeter, passar necessidade, ser humilhado.
Enquanto permanecem no apartamento, imersos em um universo mágico e infantilizado, Théo e Isabelle suspendem a realidade, e isso é fácil. Théo afirma lutar pelo povo, mas jamais se mistura a ele. Isabelle, por sua vez, se cala. Obedece ao irmão. Consente com o que ele determina. Não por ausência de opinião, nem por submissão voluntária, mas porque concordar com Matthew e romper com Théo significaria o fim do privilégio, da fantasia e do conforto.
O apartamento fala. Ele denuncia uma esquerda elitista presa ao ativismo performático: palavras radicais, atitudes inofensivas. O espaço seguro da casa é onde se pode ser “transgressor” sem enfrentar riscos reais. Em “Os Sonhadores”, Bertolucci não flerta com a rebeldia, ele a desmonta. E faz isso utilizando aquilo que mais ama como linguagem: o cinema. O cinema atravessa cada plano do filme, seja nas referências diretas a obras clássicas, seja na estética herdada da Nouvelle Vague, seja na própria cinefilia como gesto político esvaziado.
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