“Uma Carta à Minha Juventude” é um drama que aposta menos em grandes viradas e mais na observação cuidadosa das feridas que a infância deixa. Dirigido por Sim F., o filme acompanha a trajetória de Kefas, primeiro na infância e depois na vida adulta, mostrando como experiências mal resolvidas continuam moldando decisões muitos anos depois.
Quando criança, Kefas é interpretado por Millo Taslim como um garoto inquieto, rebelde e frequentemente visto como problema dentro do orfanato Pelita Kasih. Ele desafia regras, reage com agressividade e parece sempre à beira de um novo conflito. O filme deixa claro, sem sublinhar, que esse comportamento funciona como uma forma de defesa. Kefas não sabe nomear o que sente, então age. Cada advertência que recebe, cada limite imposto, o empurra ainda mais para o isolamento.
Grande parte dessa tensão se concentra na relação entre Kefas e Simon, vivido por Agus Wibowo. Simon é um dos responsáveis pelo orfanato e representa a disciplina, o controle e a rigidez institucional. Ele cobra obediência, impõe regras e raramente demonstra afeto. O embate entre os dois não é tratado como uma luta entre vilão e vítima. Ambos carregam dores próprias e maneiras limitadas de lidar com elas. Isso torna cada confronto mais desconfortável e, ao mesmo tempo, mais real.
O orfanato é mostrado como um espaço funcional, organizado, mas emocionalmente frio. Ali, o cuidado existe, mas vem acompanhado de distância. Esse ambiente reforça a dificuldade de Kefas em criar vínculos e explica por que cada gesto de autoridade pesa tanto. O filme avança mostrando como pequenas punições, silêncios prolongados e tentativas frustradas de aproximação produzem efeitos concretos no comportamento do garoto.
Quando a narrativa se desloca para o presente, Kefas adulto surge interpretado por Fendy Chow. Agora mais contido, ele carrega no corpo e no olhar marcas do que viveu. O filme não transforma esse retorno em um acerto de contas explícito, mas em um processo silencioso de confronto interno. Kefas tenta entender quem ele se tornou e o que ainda precisa enfrentar para seguir em frente. Cada movimento nessa fase é cauteloso, como se qualquer passo em falso pudesse reabrir feridas antigas.
A atuação de Fendy Chow dá densidade a esse momento. Mesmo com menos tempo em cena, ele constrói um personagem atento, cheio de pausas e escolhas medidas. O contraste entre o Kefas impulsivo da infância e o adulto contido ajuda o espectador a perceber o impacto duradouro daquele ambiente e da relação com Simon. Nada é explicado em discurso; tudo aparece nas reações, nos silêncios e nas decisões práticas.
Sim F. conduz o filme com um ritmo deliberadamente calmo. Algumas cenas se estendem mais do que o habitual, criando espaço para que o espectador observe gestos e emoções que normalmente passariam despercebidos. Esse ritmo pode exigir paciência, mas também reforça a proposta do filme: não apressar sentimentos que levaram anos para se formar.
A trilha sonora, especialmente a música “Kidung”, atua como fio emocional ao longo da história. Ela não serve apenas de fundo, mas acompanha estados internos de Kefas, reforçando sensações de perda, contenção e memória. É um recurso simples, mas eficaz, que ajuda a manter a unidade emocional do filme.
“Uma Carta à Minha Juventude” não busca comover pelo excesso, nem oferecer respostas fáceis. Sua força está em tratar dor, afeto e responsabilidade emocional com cuidado e honestidade. É um filme que observa mais do que julga e que confia no espectador para preencher os espaços deixados pelos silêncios. Sem pressa, ele constrói um retrato sensível sobre crescer, errar e aprender a lidar com o que ficou para trás.
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