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Dois atores, duas idades, um mesmo homem: a Netflix tem um coming-of-age que parece espelho Divulgação / Netflix

Dois atores, duas idades, um mesmo homem: a Netflix tem um coming-of-age que parece espelho

Desde tenra idade, a solidão pode ser a companheira mais fiel de alguém, em  especial quando a vida lhe nega o que qualquer um ganha sem ter de pedir. Brinquedos velhos ocupam o lugar que deveria pertencer a um pai e uma mãe, perguntas vão despontando, inclementes, exigindo respostas que nunca chegam, mistérios que se perpetuam no vazio. Ausências compõem a identidade de pessoas como Kefas, o sobrevivente orgulhoso de um inferno peculiar. O protagonista de “Uma Carta à Minha Juventude” vence a orfandade numa instituição para menores, mas essa incômoda lembrança não o deixa em paz. Biográfico, o relato do indonésio Sim F tem uma beleza incomum, típica do velho cinema.

Fantasmas insistentes

Na introdução, um Kefas consagrado oferece uma festa para o décimo aniversário da filha, mas não consegue aproveitar. A menina entra na piscina, e ele, médico, sai correndo atrás, excessivamente preocupado com sua saúde. Ao fim do convescote, a garota tem mesmo um mal-estar, a mãe lhe dá um antitérmico, mas Kefas só sossega quando a leva ao hospital e ouve que ela pode ir para casa. Kefas não percebe, mas os traumas da vida no orfanato interferem em sua rotina hoje, constatação que só fica clara quando a esposa decide afastar-se por um período, deixando-o sem a filha. Esse é o gancho de que Sim F vale-se a fim de transportar seu protagonista para os corredores longos e os quartos de paredes descascadas que Kefas têm muitos frescos na memória, e Fendy Chow cede lugar a Millo Taslim, que domina boa parte do filme. Que guarda surpresas.

Dois reflexos, um espelho

Evitando o melodrama, Sim F costura os dois segmentos, realçando a imagem da criança como o rascunho do que um indivíduo pode tornar-se, o que, por óbvio, está longe de ser uma regra. Como sói acontecer, a química entre Chow e Taslim segura o espectador, sendo capaz ainda de exaltar a performance de Agus Wibowo. Como pode-se concluir, Simon Ferdinand, o cuidador interpretado por Wibowo, também é Sim F, e o ciclo se fecha. A vida só é bela para quem sabe admirá-la.

Filme: Uma Carta à Minha Juventude
Diretor: Sim F
Ano: 2026
Gênero: Coming-of-age/Drama
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.