O fluxo migratório do México para os Estados Unidos tem sido uma das maiores diásporas da pós-modernidade. Cerca de doze milhões de mexicanos vivem na América hoje, sendo que um terço deles não tem visto. Em 2023, os mexicanos ainda representaram a maior fatia de migrantes nos Estados Unidos, correspondendo a cerca de 23% dos 47,8 milhões no país. À tragédia da imigração, soma-se um dado ainda mais perverso. Alimentado por corrupção e negligência do poder público, a escravatura no século 21 alicia em todo o mundo outros doze milhões de crianças como mão-de-obra abundante e barata para empresas clandestinas ou não, eixo em torno do qual move-se “A Cidade dos Sonhos”. Mohit Ramchandani joga luz sobre esse escândalo, óbvio, mas ignorado.
Inocência perdida
Poucas imagens simbolizam com tanta força e singeleza a infância quanto meninos numa partida de futebol, disputada num campo de terra batida, claro. Jesús vive numa região isolada do México, mas nunca pôde esquecer a vontade de ser um atleta profissional, e parece que o seu sonho realizar-se-á, afinal. Ele vê um panfleto divulgando um acampamento para jovens aspirantes a jogador em Los Angeles, e é para lá que ele vai, pelas mãos de um coiote. O diretor-roteirista esmiúça a agonia de seu Jesús depois que ele se dá conta de que o sonho virou pesadelo e foi parar numa confecção de fundo de quintal, trabalhando sem direito algum junto com outras crianças. A sensação de claustrofobia, de calor, de sujeira torna-se palpável, encarnadas por Ari López como o porta-voz de uma miséria que dá frutos. A mensagem ecoa.
Marketing social
López volta no epílogo para uma diatribe ecumênica, contra ativistas como Angelina Jolie e Bono Vox e políticos democratas a exemplo de Hillary e Bill Clinton e Barack Obama, além dos republicanos Donald Trump e Ron DeSantis, governador da Flórida, mas antes Ramchandani oferece mais um punhado de boa dramaturgia ao mostrar o calvário de Jesús sob El Jefe, o capataz diabólico de Alfredo Castro. As metáforas nem sempre originais elaboradas pelo diretor funcionam, sobretudo no momento em que a trama assume seu potencial de thriller, com Jesús salvando a si e aos demais garotos, libertando o grito que o sufocava. Mas ainda há muitos outros sem voz, numa multidão de surdos.
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