“Amaldiçoada” acompanha Liz (Dakota Fanning), uma mulher marcada por um passado violento que tenta seguir em frente em um ambiente onde quase nada favorece recomeços. Ela vive à margem, aceita trabalhos modestos e aposta no anonimato como forma de proteção. O problema é que o passado não fica quieto. Ele retorna na figura de um pregador fanático vivido por Guy Pearce, um homem que mistura fé, poder e obsessão, e passa a persegui-la com a convicção de quem acredita ter autorização divina para tudo.
Liz não é apresentada como heroína clássica, mas como alguém que aprende a sobreviver fazendo contas. Cada decisão envolve risco: onde ficar, em quem confiar, quando falar e, principalmente, quando se calar. Ao lado da filha (Emilia Jones), ela tenta construir uma rotina mínima, sabendo que qualquer passo em falso pode chamar atenção demais. A maternidade aqui não é romantizada; ela pesa, limita movimentos e transforma escolhas simples em dilemas urgentes.
O personagem de Guy Pearce é ameaçador justamente porque não depende apenas da violência direta. Ele ocupa espaços, fala com pessoas influentes, usa discursos religiosos para abrir portas e justificar abusos. Sua presença contamina o ambiente, criando um clima constante de vigilância. Não é alguém que corre atrás de Liz o tempo todo, mas alguém que reduz lentamente as opções dela, encurtando rotas de fuga e aumentando a pressão psicológica.
A força do filme está nesse jogo silencioso. O suspense não vem de grandes explosões ou cenas excessivas, mas da espera, do medo de ser vista, da sensação de que o perigo pode surgir a qualquer momento. A direção de Martin Koolhoven aposta em um ritmo controlado, deixando claro que, para Liz, o maior desafio não é enfrentar o inimigo de frente, mas ganhar tempo e manter o controle da própria vida pelo maior período possível.
Dakota Fanning entrega uma atuação contida e muito física, baseada em gestos, olhares e decisões práticas. Já Guy Pearce constrói um antagonista inquietante, que assusta menos pelo que faz explicitamente e mais pelo que acredita estar autorizado a fazer. Emilia Jones funciona como o centro emocional da história, lembrando o tempo todo o que está em jogo.
“Amaldiçoada” é um drama com suspense que trata sobrevivência como negociação constante, não como ato heroico. É um filme duro, desconfortável e direto, interessado em mostrar como o poder pode se esconder atrás de discursos aparentemente nobres, e como resistir, às vezes, significa apenas continuar de pé mais um dia.
★★★★★★★★★★



