Ciúmes, confrontos, urgência em ser amado. Irmãos brigam por miudezas e por motivos que transcendem a razão, encarados por quem está de fora como algo passageiro. Nessas disputas, amor e ódio caminham lado a lado, até que reste qualquer coisa nunca dita que apodrece, o arranhão torna-se chaga e uma moléstia incontrolável é a ruína da qual, no fundo, todos já tinham uma ideia. Às vezes, a maturidade empalidece um tanto as lembranças amargas de uma convivência difícil, mas há questões que custam a serenar e voltam como tempestades impiedosas, como se assiste em “Dupla Perigosa”. O diretor Ángel Manuel Soto acerta ao ver problemas de família juntando um par de adoráveis brucutus, parceria rica em nuanças.
A viagem
James e Jonny Hale têm muito mais em comum do que gostariam de admitir — embora eles mesmos não o saibam. Acontecimentos que fundem mistério, dinheiro ilegal e sangue não tardam a despertar neles a necessidade de tirar a limpo mal-entendidos de um passado distante, todos nascidos de uma figura próxima que não conheceram o bastante. Quando ficam sabendo que o pai está morto, Jonny decide viajar ao Havaí, onde seráo prestadas as últimas homenagens num funeral típico, e então a história começa. Antes, o roteiro de Jonathan Tropper fixa-se em cada um deles, mostrando James como um ex-fuzileiro naval radicado numa pacata cidade havaiana, marido devotado e pai de dois filhos, e o policial Jonny curtindo a vida adoidado em Nova York, até ser interpelado em casa por bandidos atrás de uma fortuna.
O pacote
Antes de uma sequência de lutas muito bem coreografada, os criminosos, a mando da Yakuza, revelam que o pai de Jonny, um investigador particular, lhe teria dado um pacote, mesmo que o caçula retruque que os dois não se viam desde que ele era garoto.
Perspicaz, o diretor aposta na dinâmica do reencontro entre Jonny e James no Havaí, conseguindo a façanha de dar alguma leveza à subtrama dos meios-irmãos obrigados a uma convivência repentina, depois de anos de afastamento, dando carta branca a Jason Momoa e Dave Bautista. Um dos produtores, Momoa confere a Jonny a aura cínica que faz toda a diferença nesses enredos, ao passo que Bautista se consolida como a encarnação do brutamontes atormentado, esperando a hora certa para deixar a sua ternura aparecer. A solução do assassinato fica para depois, um pen-drive secreto é meio óbvio, mas e daí?
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