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O Dom Quixote não nasceu do nada: a Netflix mostra o inferno que moldou Cervantes Divulgação / Misent Producciones S.L.

O Dom Quixote não nasceu do nada: a Netflix mostra o inferno que moldou Cervantes

Na manhã de 1575, um convés molhado e a corda que arrasta corpos feridos colocam Cervantes de volta da batalha naval já mancando, sem conseguir apoiar o ombro sem careta. A captura vem com empurrão e contagem, com homens armados escolhendo quem pode virar resgate. Ele tenta ficar de pé, tenta puxar conversa, tenta entender para onde o barco segue, e entrega minutos de tontura a cada tentativa, com sangue pingando na madeira enquanto o mar sacode.

Na noite seguinte, a cela tem porta grossa, corrente no tornozelo e um jarro de água que passa de mão em mão, e “O Cativo” entra na rotina de quem conta o tempo pelo barulho do corredor e pelo pão que chega. Cervantes decide gastar a própria voz em troca de pequenos favores e de um canto menos disputado no chão. Cada história custa sono, porque ele passa horas repetindo trechos na cabeça antes de abrir a boca, e custa coordenação dos outros, que precisam sentar, calar e escolher quem vigia a porta enquanto a roda escuta.

Corrente no chão, roda acordada

De manhã cedo, ainda com a mesma corrente raspando no chão, a roda de presos combina horário e ordem de fala perto da parede, e Cervantes aceita repetir um trecho que alguém perdeu na véspera. Um homem pede água com o jarro na mão, outro exige silêncio batendo no próprio peito, e a conversa vira acerto de minutos. Quem assiste precisa agarrar esses combinados sem distração, porque a informação volta em frases baixas e espaçadas, e quem vê no transporte ou numa sala barulhenta acaba voltando alguns segundos para entender o que ficou acertado.

De madrugada, com uma vela curta perto da cama improvisada, Julio Peña (III) põe Cervantes num corpo que treme e engole a dor antes de falar. A tomada dura o bastante para o público ficar preso ao rosto dele, mesmo tarde, quando o relógio já passou da meia-noite e a mão procura o celular por reflexo. Quem insiste em ver naquela hora paga com atenção, porque qualquer segundo perdido obriga a refazer na cabeça quem estava na roda e o que foi combinado.

À tarde, uma mesa de madeira com moedas e papéis vira balcão de valores, e Alessandro Borghi entra como Hassam, o homem que decide se a porta abre ou se fecha naquele dia. Ele circula, pede informação, testa lealdade, e confere números com a ponta do dedo como quem confere troco. Quem assiste acompanha o vai e vem como serviço de memória, refazendo nomes e posições para não se perder, e gasta energia tentando lembrar quem acabou de sair da sala e para quem ficou a próxima cobrança.

Mesa de moedas e papéis

No dia seguinte, um copo de metal e um pedaço de pão viram motivo de briga dentro da cela, e a convivência vira disputa por espaço e por fala. Miguel Rellán aparece como alguém que interrompe uma conversa com frase seca e pede prova antes de entrar em qualquer plano. O grupo se separa em decisões pequenas, como sentar perto da parede ou perto da grade, e cada escolha termina em fome ou em pancada na mesma manhã, porque ali o pão não cresce e ninguém tem como se afastar quando a raiva estoura.

Ao cair da noite, a preparação de fuga entra em corda, nó e contagem de passos no pátio, com homens repetindo o mesmo trajeto até decorar o caminho. Cervantes incentiva, negocia e ajusta o plano conforme a reação dos parceiros, e paga com risco a cada ensaio, porque um barulho errado no corredor chama gente armada. Do lado de cá, quem está no sofá entrega minutos inteiros a essas repetições e precisa ficar ligado para notar o detalhe que muda de uma passagem para outra, sem ter alguém dizendo o que vale guardar.

Na madrugada, com a parede virando obstáculo e saída ao mesmo tempo, a sequência fica colada em gente que tenta atravessar o espaço com o que carrega no bolso e no corpo. Quem assiste precisa reservar a sessão inteira, porque parar no meio quebra a contagem de horas e apaga da memória a última troca feita na cela. A própria duração vira compromisso doméstico, com a cadeira pressionando as costas e o relógio avançando, até chegar a tela preta e o gesto automático de esfregar o olho e checar a hora.

Filme: O Cativo
Diretor: Alejandro Amenábar
Ano: 2025
Gênero: Aventura/Biografia/Drama/História/Suspense
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★