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Chegou ao Prime Video: a história real tão absurda que parece ficção (e é viciante) Divulgação / Sony Pictures Releasing

Chegou ao Prime Video: a história real tão absurda que parece ficção (e é viciante)

Na manhã em que o correio começa a entregar as cartas, Edith Swan organiza o chá na mesa, alisa o envelope com a ponta dos dedos e segura o lacre por um instante a mais, como quem calcula quanto tempo vai perder naquele papel. “Pequenas Cartas Obscenas” abre com esse ritual doméstico e com a conta que ele espalha pelo dia, porque a leitura invade a rotina e pede uma segunda rodada de explicações para cada visita. Olivia Colman mantém Edith com as mãos firmes na xícara e com o maxilar preso, e essa compostura cobra minutos de quem mora perto, já que toda conversa passa a exigir voz baixa e cuidado com a palavra.

À noite, quando a rua já escureceu e a porta de uma casa vizinha fecha com força, a suspeita vira visita e a caixa de correio vira ponto de parada, com gente encostando na grade para perguntar o que chegou no dia. Um pedaço de papel empurra a vizinhança para fora de casa, e o preço vem em jantar atrasado e em minutos gastos no degrau, esperando alguém admitir, em voz curta, que recebeu outra carta. A fofoca deixa de ser recado rápido e vira tarefa de quarteirão, porque cada morador quer confirmar o insulto antes de deitar.

Banco do tribunal e cadeira

Numa tarde de acusação, Rose Gooding entra no centro da história com o banco do tribunal à frente e uma cadeira que obriga a coluna a aguentar horas de audiência. Jessie Buckley põe Rose sentada e de pé com o corpo elétrico, reagindo a cada frase que circula em papel timbrado, e isso cobra decisão prática, porque o dia seguinte chega com trabalho e com criança esperando. A possibilidade de perder a guarda da filha não fica no ar, vira risco contado em deslocamento pago do próprio bolso, em falta no serviço e em mais tempo parado na fila do fórum quando a sessão se estende.

No dia seguinte, com o caso dominando as conversas da manhã, a delegacia vira sala apertada para tanta certeza pronta, e um maço de documentos ocupa a mesa onde se deveria tratar de rotina. Gladys Moss, vivida por Anjana Vasan, revisa anotações com lápis curto e reaproveita folhas, e esse esforço cobra coordenação de quem não costuma ser chamada para decidir nada, porque cada pista exige encontro marcado e recado entregue na hora certa. Ela precisa pedir ajuda, distribuir tarefas e encaixar perguntas entre turnos e deslocamentos, e ainda voltar tarde, com o casaco carregando o cheiro da rua.

À tarde, quando as cartas já circulam em mãos diferentes, mulheres da cidade começam a bater em portas e a observar detalhes com a pressa de quem precisa voltar antes do escurecer. Um caderno de anotações passa de mão em mão, e cada visita pede passos repetidos, tempo de espera no corredor e energia para convencer alguém a falar sem plateia. O grupo precisa combinar horário, dividir caminho e aceitar atraso, porque a suspeita lançada em público pede resposta em público, e ninguém ali tem carro à disposição nem dia livre sobrando.

Relógio, jornal e balcão

À noite, quando alguém resolve ler trechos em voz alta na sala, o riso vem junto do desconforto, e o copo na mão vira abrigo para a boca e para o olhar. Quem escuta gasta energia tentando não rir na frente de quem se ofende, e depois gasta mais uns minutos revirando na cabeça a carta anterior para não se perder no encadeamento das acusações. A sequência pede atenção de quem já está cansado, porque a sala esquenta, a cadeira prende o corpo no lugar e o relógio empurra a hora de dormir.

De manhã, com o jornal nas mãos e a letra impressa repetindo o caso, a cidade compra a própria inquietação por algumas moedas e paga com tempo, porque ninguém lê rápido quando teme ser o próximo alvo. Um balcão de comércio vira ponto de comentário, e a manchete obriga gente a se explicar antes mesmo do almoço, como se cada família tivesse que apresentar defesa no meio da rua. A conta vem em discussão que começa cedo, em serviço deixado pela metade e em gente que volta para casa com a cabeça cheia, ainda segurando o papel dobrado no bolso.

À noite, já na cadeira do cinema ou no sofá de casa, o espectador percebe que precisa acompanhar o vaivém de cartas, depoimentos e visitas, porque a história exige memória e tira descanso por uma hora e quarenta. Quem assiste distraído perde um nome, confunde uma fala e precisa recuperar o fio na marra, gastando mais atenção do que planejava para aquele horário. “Pequenas Cartas Obscenas” fecha melhor quando obriga esse trabalho e termina com um gesto simples do lado de cá, a mão apertando o papel dobrado no bolso e o corpo procurando a chave antes de apagar a luz.

Filme: Pequenas Cartas Obscenas
Diretor: Thea Sharrock
Ano: 2023
Gênero: Crime/Drama/História/Thriller
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★