Quando “Homebound” começa, fica claro que não se trata apenas de um filme sobre um concurso público. Sob a direção contida e precisa de Neeraj Ghaywan, a história acompanha dois amigos que acreditam ter encontrado na polícia uma saída concreta para a precariedade. Shoaib, vivido por Ishaan Khatter, e Chandan, interpretado por Vishal Jethwa, não sonham com heroísmo ou vocação. Eles querem estabilidade, salário fixo e algum respeito social. O problema é que o caminho até esse mínimo de dignidade cobra um preço alto, e quase sempre invisível.
A amizade entre os dois nasce como apoio mútuo. Eles estudam juntos, dividem gastos, compartilham informações e tentam enfrentar o processo como uma frente única. No início, tudo parece simples: cumprir etapas, passar no exame, entrar para a lista. Mas o próprio sistema que promete ordem começa a transformar essa parceria em algo tenso. O tempo de espera se alonga, o dinheiro encurta, e cada decisão passa a ter peso real demais para ser tomada em conjunto.
Shoaib precisa conciliar o estudo com trabalhos informais para sobreviver. Chandan, por outro lado, consegue se dedicar integralmente à preparação, mesmo que isso implique sacrifícios dentro de casa. O filme observa com atenção como essas escolhas práticas, nada dramáticas à primeira vista, criam uma desigualdade silenciosa entre eles. O mesmo objetivo passa a produzir trajetórias diferentes. E, sem perceber, a fila que os unia começa a colocá-los em posições distintas.
Aos poucos, estudar deixa de ser cooperação e vira comparação. Informações que antes circulavam livremente passam a ser guardadas. Pedidos simples ganham constrangimento. Shoaib se esforça além do limite físico para compensar o atraso; Chandan começa a proteger o que acredita ser vantagem legítima. Não há brigas explosivas nem grandes traições, só pequenos gestos que acumulam desgaste. O filme é cuidadoso ao mostrar que amizades não se rompem de uma vez: elas se desgastam em silêncio.
A personagem de Janhvi Kapoor entra nesse equilíbrio instável sem roubar o foco da narrativa. Sua presença ajuda a expor fissuras que já existiam, revelando como Shoaib e Chandan ajustam comportamentos, escondem frustrações e evitam conversas diretas. Nada é dito de forma explícita. Tudo aparece nos olhares, nas pausas, nas frases que não chegam ao fim.
A polícia, curiosamente, quase nunca está em cena. Ainda assim, sua autoridade domina o filme. Ela aparece nos formulários, nos prazos, nas taxas, nas exigências burocráticas que consomem tempo, dinheiro e energia. Shoaib enfrenta discriminações religiosas que tornam o caminho ainda mais estreito. Chandan tenta ignorar essas diferenças para manter o plano funcionando. O resultado é uma desigualdade prática, que não precisa ser anunciada para ser sentida.
Quando o dinheiro começa a faltar de vez, “Homebound” deixa claro que mérito não existe separado das condições materiais. Aluguel, transporte e taxas passam a disputar espaço com comida e descanso. Cada erro pesa mais. Cada atraso custa caro. A amizade, antes uma força, vira uma variável frágil, constantemente renegociada.
O filme evita julgamentos fáceis. Ninguém é vilão, ninguém é exemplo. Shoaib e Chandan apenas respondem à pressão como conseguem. Neeraj Ghaywan filma essas escolhas com distância e respeito, interessado menos no resultado final e mais no processo que vai moldando quem avança e quem fica para trás.
“Homebound” não traz catarse nem soluções prontas. O longa observa como instituições transformam sonhos em disputas, e como vínculos pessoais se alteram quando passam a obedecer a regras externas. O exame continua lá, a fila não anda como prometido, e a amizade já não funciona do mesmo jeito. Ele nos deixa a constatação incômoda de que, em certos sistemas, sobreviver juntos pode ser mais difícil do que competir sozinho.
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