Personagens à deriva habitam uma América suspensa, vivendo sem razão, presos em rotinas insignificantes. Corroídas pela frustração, as relações passam a ser silenciosas, mudas, porque falar não resolverá mais nada. O passado não conforma-se em sumir, e o futuro vem desesperançoso, cheio de promessas insustentáveis. A tragédia insinuada no primoroso “O Código do Silêncio” fala de gente esquecida, que não morre, mas não vive, apenas espera por um salvador mágico. Desde “Dark Harbor” (2019), Joe Raffa tem demonstrado vocação para domar paisagens agrestes, como se precisasse delas para explicar nosso isolamento e nossa maldição. Raffa e o corroteirista Greg Finley iluminam a sordidez de uma região turística em que os moradores trabalham duro. E o crime viceja.
Vidas gélidas
Downeast, o território a leste da costa da Nova Inglaterra e do Canadá, tem seu lado sombrio. As temperaturas abaixo de zero do inverno fustigante não detêm Tommy e Bobby e eles saem para alto-mar com o barco de lagosta, aproveitando cada minuto até que o sol recolha-se precocemente. As dívidas de jogo de Bobby obrigam Tommy a mourejar, rotina que ele encara sem pensar muito, porque a filial da máfia irlandesa na cidade é conhecida pela truculência. Kerrigan, o líder do bando, tem sido instado por gângsteres de Boston a transportar dinheiro ilegal a outros estados com a ajuda dos pescadores de Downeast e, claro, Tommy é o primeiro nome que lhe ocorre. Em sequências ágeis, Raffa submete uma personalidade estoica a uma contingência abusiva até mesmo para ela. Tommy atrai para si conflitos os mais diversos, e eles amontoam-se.
Esqueletos no armário
Em meio às investidas de Kerrigan, um crime volta a agitar Downeast. O assassinato do melhor amigo de Tommy é novamente assunto, e Emma, a irmã dele, está apreensiva, ansiando por respostas. Despretensiosa, a subtrama de uma mulher que larga tudo e regressa à cidade natal para averiguar a possível inércia das autoridades cresce mais do que o esperado, com Dylan Silver roubando a cena, sem que Tommy, interpretado pelo próprio Finley, e o Kerrigan de Judson Mills tornem-se obsoletos. Façanha digna de aplausos nesse gênero.
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