Que a política é suja todos sabemos. O que Eric Bross faz em “Perigosa Ambição”, contudo, é abrir as entranhas de uma atividade na qual o sucesso nem sempre vem da persistência ou dos sacrifícios insondáveis de cada um, mas dos conchavos, do compadrio, da capacidade de submeter-se a baixezas de toda ordem. Círculos reservados de poder, desejo e corrupção moral dos bastidores de Washington veem à tona como se embrulhados para presente num papel colorido, que qualquer um reconhece, achando-o quase encantador. O grande mérito do roteirista Tom Cudworth é conseguir absorver a aura de falso moralismo que ronda esses personagens, figuras sempre charmosas, sedutoras, apesar do feitiço ter suas limitações.
Os estereótipos
Michael Lawson, um jovem e obscuro aspirante a marqueteiro e assessor de poderosos, está determinado a ir longe. Passados alguns dos 97 minutos do filme, Bross conta-nos que Michael divide um apartamento modesto com Callie, uma amiga homossexual, mas já nas primeiras cenas não resta nenhuma dúvida de qual seja seu objetivo, que ele persegue sem medo e sem pruridos morais. A entrevista na casa de uma colaboradora da campanha do senador John Boland Baines, seu alvo profissional mais desejado, termina no quarto dela que, passados alguns dias, o apresenta à equipe do candidato. O diretor equilibra uma fieira de lugares-comuns com o carisma e a dedicação sincera do elenco, liderado por um franzino David Corenswet, sete anos antes do “Superman” (2025), de James Gunn, e essa parece uma arma eficaz.
Golpe de mestre?
Michael passa a integrar a equipe de Baines, não por sua suposta competência ou pela intercessão da mulher que o entrevistara. Durante o jantar para arrecadação de fundos, ele procura Rob Reynolds, o coordenador da campanha, e revela que tem acesso a um arquivo com imagens de um juiz que pleiteia uma vaga na Suprema Corte divertindo-se com um rapaz num banheiro público. Próximo do senador — e conhecido por suas posições conservadoras, em especial no que toca ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, o juiz e sua verdadeira identidade têm potencial para arruinar os planos de Baines e causar um grande estrago na carreira de Reynolds, que vinha colecionando vitórias. Bross faz bom proveito do antagonismo entre Corenswet e Adrian Grenier, com algum tempo para destrinchar a relação de Michael e Callie, de Thora Birch, a dona do vídeo. Entretanto, a insistência em fazer de Michael uma vítima das mulheres — ele também é “atacado” por Judith e Darcy, a esposa e a filha de Baines, interpretadas por Mimi Rogers e Grace Victoria Cox, respectivamente —, além de ingênua é enfarosa. “Perigosa Ambição” perde a oportunidade de ser um thriller político instigante por querer mostrar o que o que já se vê à náusea por aí.
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