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É uma história de amor… só que com a cidade inteira assistindo: Richard Gere e Jodie Foster no Prime Video Divulgação / Warner Bros.

É uma história de amor… só que com a cidade inteira assistindo: Richard Gere e Jodie Foster no Prime Video

A trama começa com uma chegada que interrompe rotinas e devolve um fantasma ao convívio. Um homem reaparece depois da Guerra Civil Americana e cruza o portão como se o relógio não tivesse andado, pedindo lugar à mesa e ao lado da cama. A comunidade não recebe esse retorno com abraço coletivo, e sim com contas feitas em voz alta, lembranças comparadas e olhos grudados no casal. “Sommersby — O Retorno de um Estranho” transforma um assunto de quarto em assunto de rua, com vizinhos medindo o que veem e cobrando que o homem bata com as memórias que restaram. A primeira decisão não passa por juiz, passa pela porta da casa, aceitar o retorno ou pedir que ele vá embora, e cada opção troca um minuto de paz por novas conversas na varanda.

Laurel sente primeiro o peso desse julgamento, porque qualquer escolha doméstica vira recado para todos. Jodie Foster constrói a personagem no detalhe, arrumar a casa, dividir o serviço, atender quem encosta no batente para “só perguntar”, engolir comentários ditos com falsa delicadeza e ainda manter o corpo em pé para o trabalho do dia seguinte. Quando ela permite que o recém-chegado retome espaço, não compra sossego, compra uma lista de tarefas novas, porque o marido volta junto com visitas, bilhetes e gente aparecendo sem aviso. Ela precisa administrar a cozinha e, ao mesmo tempo, administrar a plateia, escolhendo palavra por palavra para não acender outra discussão. Isso cobra sono curto e energia drenada em respostas que nunca parecem suficientes.

Mesa, terra e perguntas

O homem que volta chega com outra postura, menos agressiva e mais cuidadosa, e é justamente isso que acende a desconfiança. Richard Gere sustenta Jack com presença física e economia de fala, deixando a hesitação aparecer nas mãos e no modo de se sentar, como alguém que reconhece os objetos, mas ainda não se sente dono deles. Ele tenta se mostrar útil, volta a circular pelos mesmos caminhos, reaprende nomes e suporta a mesma pergunta feita de maneiras diferentes, como se cada interlocutor quisesse arrancar uma confissão por insistência. Para não abrir brecha, Jack escolhe frases curtas, muda de assunto, sorri onde antes brigaria, e esse controle consome tempo de conversa e autocontenção, até dentro de casa.

Quando a desconfiança vira rotina, ela se organiza em rondas, em encontros no portão e em recados deixados por terceiros. A vida do casal passa a ter plateia, e qualquer gesto rende comentário, o prato servido, o jeito de caminhar, a palavra dita fora de hora, a visita que demora para ir embora. Bill Pullman entra como um dos rostos mais presentes desse cerco, alguém que observa, insiste, volta no dia seguinte e não aceita uma resposta curta, mesmo quando Laurel tenta encerrar a conversa. O filme ganha força nesses atritos pequenos, porque eles atrasam combinações, quebram horários e obrigam os dois a repetir explicações em pé, do lado de fora, com gente escutando por perto.

Porta, estrada e recados

Jon Amiel dirige com discrição e deixa a história caminhar pelas relações, sem apelar para choque fácil. Ele alterna momentos de intimidade, em que o casal tenta combinar regras simples de convivência, com cenas em que a comunidade invade a conversa e exige explicações ali mesmo, no batente, no caminho, diante de quem parar para assistir. Há cuidado em filmar espaços comuns, mesa, quarto, varanda, como áreas em que qualquer palavra pode ser ouvida por alguém a poucos passos, o que obriga os personagens a engolir reações e medir o tom. A tensão vem menos de perseguição e mais do incômodo de estar sempre à vista, como se a casa tivesse virado extensão da rua.

O roteiro de Nicholas Meyer e Sarah Kernochan acerta quando liga o mistério ao modo como uma comunidade decide quem merece segunda chance. Não é só um casal tentando se entender, é um casal tentando atravessar a semana sem ser puxado de volta ao mesmo assunto por gente que não larga o tema. Laurel precisa negociar acesso a lugares que antes eram naturais, escolher com quem fala, quem cumprimenta, quem evita, e cada saída vira cálculo de percurso para cortar caminho e reduzir exposição. Do outro lado, a cidade insiste em tratar amor como prova, e o romance cresce apesar do cansaço, porque cada gesto de aproximação traz junto um novo grupo de curiosos.

Nem tudo tem o mesmo peso, e há trechos em que a história repete situações para reforçar uma ideia já captada, o que pode cansar. Ainda assim, o conjunto se sustenta em confrontos bem colocados e em cenas domésticas observadas de perto, nas quais confiança não nasce de frase bonita, e sim de convivência que exige paciência e trabalho repetido. O mistério se mantém porque a dúvida aparece em gestos pequenos, no olhar de canto, na visita que chega cedo demais, na conversa que termina com alguém parado no portão. Quando a rua enfim se cala por algumas horas, Laurel encosta a porta e tenta dormir antes que outra batida recomece.

Filme: Sommersby — O Retorno de um Estranho
Diretor: Jon Amiel
Ano: 1993
Gênero: Drama/Mistério/Romance
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★